Ronald está para baixo. Down, como ele prefere dizer. Já não é mais tão jovem e sua beleza já não atrai com a facilidade de antes os olhares femininos. Virou tiozão. No trabalho, vê gente mais nova do que ele fazendo coisas de um jeito que ele não conseguiria fazer.
Não é mais “o cara” que era. Sente-se decadente, ladeira à baixo. Ninguém fica jogando isso na cara dele, mas acontecimentos sutis como a falta de um olhar encantado de uma moça qualquer na rua e os elogios para o rapazola que acabou de chegar na empresa são para Ronald como que um tapa estalado na face do seu orgulho. Vaidoso, não aceita facilmente que a fila ande, que está se tornando mais o senhorzinho do passado do que o jovem de futuro que já foi um dia.
Está certo de que se ainda lhe dão atenção e respeito, é só por causa da sua grana e posição na empresa; da sua casa grande e vistosa e de seu carrão de gente chique. “Não me querem, não me respeitam mais, só querem o que é meu”. Com a sobriedade de uma garrafa e meia de uísque tomado sem gelo, decidiu: “Eles vão ver. Vou cobrar. Vou exigir. Vão me pagar o respeito que me devem. Vou me tornar grande novamente”.
“Só vou pagar metade de hoje em diante. Sou seu melhor cliente. Você já ganhou muito em cima de mim. Você me deve”, disse para o padeiro de quem encomendava pães especiais e bolos de sabores exóticos e a quem pagava só no fim do mês. “Mas seu Ronald, o senhor encomendou. É nosso acordo. Vou ter prejuízo”. “O problema é seu”, encerrou a conversa enquanto lhe batia a porta na cara.
Danúbia, já na entrada, estranhou o olhar de Ronald. “O que foi, amor?”. “Cansei dessa sua briga em que você usa aquele palhaço para brigar com seu irmão, você que resolva seus problemas sozinha daqui para frente.” “Que é isso, amor?”, disse Danúbia com a docilidade submissa que sempre dedicou a Ronald. “Você abusa de mim. Está velha. Está feia. Você me deve por tudo que eu já lhe fiz. Deveria ser grata por eu estar com você. E não vou mais lhe ajudar com meu dinheiro. Você precisa me devolver tudo que eu já lhe emprestei”. “Mas você não disse que eram presentes! O que há com você, amor?”. Ronald respondeu apenas lhe entregando a “dívida” descrita em detalhes contábeis num papel que Danúbia usou para enxugar suas lágrimas enquanto saía pela porta dos fundos.
A primeira coisa que Ronald fez quando chegou à empresa foi uma lista de demissão. Não queria por perto um monte de gente que ele dizia ser inferior a ele, gente de quem ele não gostava porque era diferente, porque não entendia, ou porque, no fundo, sentia-se ameaçado por sua competência e garra. Na lista, tinha os pretos, os gays, mulheres que não respondiam aos seus gracejos inoportunos e indesejados, os jovens mais dispostos e aguerridos do que ele, os mais sábios e todos os mais que eram mais do que ele. Eram tantos na lista, que pediu ajuda a seu amigo Elano, o responsável pela comunicação tóxica da empresa e que combinava com Ronald em baixeza de espírito.
Chegou ao fim do dia orgulhoso de si mesmo. De sua grandeza imposta aos outros. Sentiu-se grande novamente. De uma grandeza temida e não de uma grandeza admirada. Grande de uma grandeza pequena. Uma grandeza que lhe fez perder o sono pensando no que cobrará do mundo para ter de volta o que nunca lhe pertenceu.
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Ilustração: Mihai Cauli
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