
Primeiro veio a incredulidade. Estava clara a situação, mas era difícil de acreditar mesmo vendo, provando, ouvindo, sentindo com todos os sentidos e outros mais que nem sabia existir. Ainda assim, o que lhe aparecia como certo, era sentido e desejado como impossível. “Não é isso, não é bem assim”, dizia para si mesmo e para os outros, com quem compartilhava o testemunho e a negação da realidade.
É sabido que negar a realidade não a muda. A pedra continua sendo pedra mesmo quando cismamos que ela é suco de maçã. O que deveria mudar com isso seríamos nós, que nos permitiríamos a iniciativa de morder pedras e ficarmos desorientados sem saber os porquês dos dentes quebrados. Mas não era bem este o caso. A negação aqui não é uma ilusão em que a recusa da realidade transforma o iludido. A negação dele é recusa da realidade justamente para não ter que mudar nada em sua vida, para manter suas ilusões a todo custo. Fácil nesse caso porque o custo é dos outros e não do iludido.
“Essa coisa de racismo não existe”, dizia com seus reluzentes olhos azuis e pele clara. “É tudo besteira. Somos um povo bacana e que não tem dessas coisas. Aqui somos todos iguais”, dizia enquanto levantava os pés para a empregada preta limpar o chão que ele pisava com sapatos sujos de lama das ruas.
Como a realidade se impõe do mesmo jeito que a dureza das pedras, chegou um momento em que não se conseguia mais sustentar a negação. “É, o Brasil é racista…”, dizia com a consternação de quem anuncia a morte de alguém conhecido, mas por quem não se nutria importantes sentimentos, o que dava à admissão, ao mesmo tempo, um ar de melancolia de amor perdido e de desimportância da perda. “Mas…”, a consternação vinha sempre com um “mas” animador. “Já melhorou bastante, e há muito exagero nesta coisa de racismo. Existe, mas não é assim, como nos tempos da escravidão”. Barganhava com a realidade, cedendo a admissão da regra geral para dar espaço a regras particulares que o eximiam da regra geral. “Eu até tenho amigos pretos. São gente boa!”.
Mas o espírito continuou vivendo espezinhado pela perda das ilusões europeias de superioridade. Nascido nessa terra de mistura de gente, dizia-se descendente de europeus. Acalentou o sonho e o tornou realidade ao tirar novo passaporte. Agora brasileiro e europeu nos papéis, na sua cabeça é mais europeu que os da Europa. Esvai-se em vaidades na sua condição de europeu, que lhe parece o deixar definitivamente longe da miscigenação que lhe ressalta a pele.
A barganha deu lugar à revolta na razão direta com que pretos passaram a dizer que existem e que querem dignidade. “Essa coisa de racismo já está virando mi-mi-mi. Não se pode mais falar nada!”. Quer continuar a falar e a fazer o que por tanto tempo se falou e fez. Nega, mas ao espelho ainda se vê como o europeu que escraviza. Ainda se vê como melhor por natureza. E toda gente preta que reclama do jeito que gente preta é tratada é, aos seus olhos, gente que não aguenta o tranco porque é fraca, gente que não merece os melhores lugares e coisas da vida, gente que não merece coisas de branco porque não são brancas e essas coisas e lugares, simplesmente, não são para eles.
Como, ainda assim, a realidade insiste em se impor, não houve jeito. Se a realidade indesejada não pode ser negada. Se não há barganha ou amenização possível, então é preciso destruí-la. Sem nuances. Sem máscaras. Sem subterfúgios para parecer decente. Sentiu-se liberto de verdade quando descobriu mais gente como ele. Revoltada como ele. Assumiu seu racismo quase por completo. Quase…
“A polícia está certa em meter bala nessa gente, tem que ser assim mesmo, não tem jeito”. “E esse padre de São Paulo que fica dando comida pra esses vagabundos?”. “Esse bolsa família é coisa politiqueira. Dão dinheiro pra esses vagabundos que, agora, não querem saber de trabalhar”. “Esse aí não apoia essas coisas de cuidar de pobre, de direitos e tal. Vou votar nele”. Ah, como fica feliz dizendo e fazendo essas coisas que lhe fazem esquecer de sua absoluta mediocridade…
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Ilustração: Mihai Cauli
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