
Dormiu mal. Acordou de seus sonhos intranquilos várias vezes, aos sobressaltos. Não saberia dizer se por obra de algum ruído ou se pelos ruídos de suas próprias ideias. Às quatro da manhã desistiu de vez da cama. Aprontou-se para o trabalho que só começaria às oito. Seguiu seu ritual matinal de banheiro e cozinha com ideias confusas lhe atormentando. Acabou colocando café demais, leite de menos, misturou manteiga com geleia de jabuticaba no pão que esqueceu de aquecer na torradeira. Estava tudo errado. Na sua rotina, na sua cabeça, no mundo.
O tempo extra gastou vendo coisas sensacionais na Internet. Estranhamente, a sucessão de vídeos curtos de assuntos aleatórios, que quebravam a unidade da realidade em fragmentos desconexos, parecia lhe acalmar o espírito. É como se só conseguisse paz em meio ao mosaico de tormentos de pequenas tragédias domésticas, gente indignada com coisas nada indignantes, dramas canastrões, gatos malabaristas e políticos de Instagram ironicamente apresentando as denúncias do dia. Talvez, sua cabeça atormentada só conseguisse experimentar alguma calma quando sua atenção estivesse capturada pelos tormentos dos outros.
Estava cansado, mas o dia ainda nem tinha começado. No entanto, sentiu um acréscimo de energia quando começou a assistir aos vídeos que raivosamente falavam de escândalos políticos e de uma superioridade natural masculina. Identificou-se com machos brancos de macheza e dominação natural surrupiadas por uma conspiração de feministas e gays. Tudo orquestrado por uma esquerda que quer dominar para aumentar impostos e enriquecer às custas de gente macho e branca como ele. Sentiu- se, naquele momento, iluminado. Atingido por mil luzes. Descobriu o segredo que eles – sempre eles – não queriam que ele soubesse.
Daquele dia em diante, não parou mais de assistir e consumir as ideias de superioridade masculina. Sua mente se alimentava do veneno de uma ilusão de superioridade vendida aos que têm ilusão de impotência. A cada vídeo, a cada áudio ou post no WhatsApp – texto escrito não. Livro, jamais! – sentia-se mais macho, mais alfa, mais iluminado de ideias obscuras.
Coroou seu novo eu participando de um grupo de confusos como ele que buscavam seu eu caminhando numa montanha. Às ilusões de macho alfa, somou-se uma pitada de militarismo e algumas doses de religiosidade. Passou a usar roupas camufladas e a se imaginar um soldado de Cristo macho alfa guerreiro contra o feminismo e o comunismo que ameaçam as famílias de bem.
Aprendeu com seus novos amigos, todos machos alfa como ele, que Jesus gostava de arma e de dinheiro. Que mulher não pode ter celulite e tem que ser submissa ao seu senhor marido. Nesse ponto, ele sentia alguma angústia. Faltava a ele sua varoa. Sempre foi sozinho de tudo. Seu jeito confuso, de uma mente que pouco entende o mundo, menos ainda as mulheres e nada sobre si mesmo não lhe tornava atraente. Há outros tantos assim como ele, mas que compensam sua feiura espiritual com alguma qualidade estética ou social. Não era o caso dele.
Atribuiu à sua conversão às ideias do neomachismo de Internet ter conseguido uma mulher para chamar de sua. Era bonita, mais jovem do que ele. Dócil. Submissa, mesmo quando percebia que seu homem estava completamente errado e que as consequências de seus atos seriam muito ruins. Aprendeu com seu pai, que de espírito era muito parecido com esse seu novo namorado, que mulher deve ser a beta do macho alfa.
Parecia a realização de um sonho. Mas as ilusões dos sonhos não afastam a dureza da realidade. Sua mente continuava atormentada como sempre. Suas ideias obtusas e confusas, como sempre. Dormia mal e acordava sobressaltado, como sempre. Tinha agora um enredo para suas frustrações e uma mulher ao seu lado, em quem, vez ou outra, aliviava suas frustrações com xingamentos e perversidades. De resto, tudo perturbado como antes. Mas essas duas coisas pareciam fazer de sua perturbação algo menos perturbador.
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Ilustração: Mihai Cauli
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