Victor desceu do púlpito com ar jubiloso. Estava certo de que sua pregação fora excepcional. Mal reparou nas reações quase protocolares do público, incompatíveis com a suposta excelência de seu discurso. Falou emocionado em palavras, gestos e jeitos sobre o respeito às leis de Deus. Sobre a balbúrdia sexual desse mundo depravado pelo Satanás. Apresentou-se como exemplo e solução. Somente com o poder nas mãos de alguém tocado por Deus, como ele, poderia salvar essa nação.

Sacha barbeou-se com afinco. Quase escalavrou a pele na tentativa de eliminar qualquer aspereza do rosto. Vestiu-se com o alinho de sempre e pôs-se ao trabalho. Seu perfume, doce e pouco discreto, anunciava com antecipação sua presença no escritório. As conversas tornavam-se menos espontâneas e espalhafatosas quando da presença de Doutor Sacha no escritório. Ele deixava claro seu apreço pela compostura, elegância, dedicação e eficiência. Era rígido, mas justo. Direto nos comandos e disciplinado na sua execução. Fazia questão de ser exemplo, pelas suas atitudes, do respeito às normas e da eficiência no trabalho.

As luzes das vitrinas desenhavam nas sombras da noite quando Victor saiu da igreja. Mal entrou no carro e afrouxou a gravata. Guardou a bíblia com algum aperto no porta-luvas. Trocou o paletó por um casaco que lhe dava um ar mais jovial. Mandou mensagem para a esposa dizendo que chegaria tarde porque precisaria ajudar um irmão com algumas questões espirituais.

Como de costume, Sacha foi direto do trabalho para o Bataclã, bordel da mais distante periferia, mas de frequência seletiva. Raspou o rosto novamente e pôs-se novamente a barbear. Alguns minutos de maquiagem, peruca, corpete, vestido sexy e Sacha transformou-se em Valentine, que insiste que seja pronunciado Valentaine. Era a musa cantora do Bataclã.

Victor chegou ao Bataclã minutos antes de Valentine subir ao palco. Já estava meio bêbado do uísque que trazia escondido em uma garrafa térmica que levava na mochila como se fosse água ou café. Pediu mais um drink enquanto flertava com os homens à volta da mesa.

Valentine cantou sublime. Victor a olhava com admiração e desejo. Ela percebeu. Sentiu algo estranho por aquele senhor. Terminado o show, Victor apareceu na porta do camarim de Valentine. Conversaram. Flertaram. Saíram dali para se amarem. Ao contrário de Doutor Sacha, Valentine era passiva, dócil. Por detrás da maquiagem parecia não haver nada daquele executivo tão assertivo e resoluto. Valentine era hesitante, indecisa, passional. Ao contrário do pastor do púlpito, Victor era gentil, doce até, não falava de culpas nem de um Deus melindroso e punitivo. Por debaixo dos lençóis, não havia pecado para Victor.

Deixaram um ao outro sem se olharem. O fim daquele encontro parecia mais frio que o vento garoado da madrugada. Estavam exaustos, bêbados, mas recompondo. A troca do casaco pelo paletó e o aperto da gravata marcava a volta do Pastor Victor e sua imaculada fé no Antigo Testamento. Já sem maquiagem, Valentine dava lugar a Doutor Sacha, que já se apressava para cumprir seu ritual matinal de asseio e chegada pontual ao escritório.

O dia lhes transcorreu normalmente. Com pregações inflamadas do pastor Victor contra a degradação dos costumes e o comunismo. Dr. Sacha conduziu sua rotina com a altivez habitual e opinou sobre a importância para os negócios de um candidato conservador nos costumes e liberal na economia.

À luz do dia, tudo se mostra tal como não é. Na escuridão, a verdade rasteja pelos becos, bares e alcovas.

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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