
Há algo de profundamente inquietante no espírito do tempo em que vivemos. Não se trata apenas de uma inflexão histórica, mas de uma mutação moral silenciosa: a progressiva naturalização de um mundo em que o indivíduo, isolado e competitivo, torna-se a unidade suprema de valor, enquanto o tecido coletivo – esse arranjo frágil que chamamos de sociedade – vai sendo esgarçado quase sem resistência. O que se apresenta como “liberdade” pode, em muitos casos, ser apenas a outra face de um abandono.
A tradição liberal, em sua origem, não era cega a esse problema. Pensadores como John Locke ou mesmo Adam Smith jamais imaginaram um mercado completamente dissociado de normas, costumes e instituições. Ao contrário: havia ali a consciência de que o funcionamento da sociedade exigia um mínimo de coesão moral e jurídica. O que vemos hoje, porém, parece ser uma radicalização – ou talvez uma caricatura – dessa tradição: uma espécie de liberalismo sem freios, que transforma a autonomia individual em valor absoluto e trata qualquer mediação estatal (ou de organismos multilaterais) como suspeita, quando não ilegítima.
Mas o que acontece quando essa lógica se impõe sem contrapesos? Surge um mundo em que a capacidade de sobreviver, ou prosperar, deixa de ser mediada por pactos coletivos e passa a depender quase que exclusivamente dos recursos individuais acumulados. É o retorno, em versão sofisticada, do velho mito do “self-made man”, cuja expressão literária mais emblemática talvez seja Robinson Crusoé. Ali, o indivíduo isolado constrói sua sobrevivência a partir de sua engenhosidade e trabalho. A narrativa é sedutora, mas enganosa. Toda capacidade individual está inscrita numa rede de relações, infraestruturas e instituições que a tornam possível. E, mais do que isso, tem uma história.
A insistência contemporânea em exaltar o sucesso individual como fruto exclusivo de mérito tende a obscurecer esse dado fundamental. E, ao fazê-lo, legitima uma ordem em que muitos ficam à margem, sem que isso seja percebido como um problema coletivo. A desigualdade deixa de ser uma questão política e passa a ser tratada como um dado natural, quase uma consequência inevitável das diferenças de talento ou esforço.
Essa visão não apenas simplifica a realidade; ela a distorce perigosamente. Porque, ao dissolver o sentido de responsabilidade coletiva, fragiliza também o próprio Estado de direito. Afinal, se cada indivíduo é soberano em sua busca por sucesso, que lugar resta para normas comuns? Que sentido têm leis, contratos, direitos, se tudo pode ser relativizado em nome da eficiência ou do ganho?
Aqui, a crítica não pode deixar de tocar um ponto sensível: a ideia de que “vale tudo” para vencer. Essa mentalidade, quando generalizada, corrói as bases da convivência civilizada. O respeito às regras passa a ser visto como ingenuidade; a cooperação, como fraqueza. O outro deixa de ser um parceiro potencial e passa a ser um obstáculo – alguém a ser superado, quando não eliminado do jogo.
A história oferece exemplos sombrios do que acontece quando a lógica da força se sobrepõe. Em contextos muito diferentes, já se tentou organizar a sociedade a partir da supremacia de alguns sobre outros, seja em nome da raça, da nação ou de uma suposta superioridade natural. Esses experimentos terminaram em tragédia, não apenas pelo sofrimento que causaram, mas porque revelaram um paradoxo fundamental: uma ordem baseada na exclusão sistemática acaba por destruir a si mesma.
Olhando para o Ocidente, há um nítido avanço de regimes de extrema direita com processos crescentes de degradação institucional. Quando o Estado é enfraquecido a ponto de não conseguir garantir direitos básicos, quando as regras são constantemente flexibilizadas para atender a interesses particulares, quando a desigualdade atinge níveis que comprometem a própria ideia de cidadania, algo essencial se perde. O contrato social – essa construção histórica que permite a coexistência de interesses divergentes – começa a se desfazer.
Talvez uma imagem contemporânea ajude a pensar esse dilema. No filme “O Poço”, os personagens estão confinados em uma estrutura vertical onde a comida passava de cima para baixo. Nos andares superiores, há abundância; nos inferiores, escassez extrema, na medida em que o alimento vai sendo apropriado. A dinâmica é brutal: cada um come o que pode, sem considerar os de baixo. O resultado é previsível: os de baixo passam fome, os de cima desperdiçam.
Mas há um elemento ainda mais perturbador. Os personagens são distribuídos pelos andares segundo um critério opaco, apresentado como aleatório, embora jamais plenamente explicado, e, periodicamente, são redistribuídos. Assim, quem hoje ocupa o topo pode, no ciclo seguinte, despertar nos níveis inferiores. A abundância e a miséria deixam de ser posições fixas e passam a operar como estados contingentes, sujeitos a uma lógica que escapa ao controle dos próprios participantes.(1)
Mesmo assim, não se gera uma solidariedade duradoura – ao contrário, reforça um comportamento predatório. Não há percepção de que a única possibilidade de sobrevivência coletiva seria a cooperação, a decisão de cada um de consumir pensando em deixar o suficiente para a sobrevivência de todos. Naquele universo falta consciência social e racionalidade.
A metáfora é poderosa porque expõe a fragilidade de sistemas baseados na competição absoluta. Sem algum grau de coordenação e solidariedade, o resultado não é eficiência, mas colapso. E aqui reside a questão central: até que ponto podemos continuar apostando num modelo que privilegia sistematicamente o indivíduo em detrimento do coletivo sem comprometer as condições da própria sobrevivência social?
Não se trata de negar a importância da iniciativa individual ou de defender um Estado onipresente. O problema está no desequilíbrio. Quando a balança pende excessivamente para um lado, o outro não desaparece, ele se degrada. E um coletivo degradado não sustenta, por muito tempo, a prosperidade individual que dele depende.
Talvez estejamos, portanto, diante de um momento de mutação. Um momento em que é preciso perguntar (sem respostas fáceis) se a redução do Estado implica necessariamente mais liberdade, ou se, ao contrário, pode significar menos lei, menos previsibilidade, menos civilização. Porque, no limite, a ausência de regras não produz um paraíso de indivíduos livres, mas um terreno onde prevalece a força – e onde a liberdade de alguns se constrói sobre a vulnerabilidade de muitos.
A dúvida permanece, e é incômoda: ao desmontarmos, pouco a pouco, os mecanismos de proteção coletiva, não estaremos gestando algo que, mais cedo ou mais tarde, escapará ao controle? Um mundo em que cada um faz o que julga certo pode parecer, à primeira vista, uma promessa de autonomia. Mas, sem um horizonte comum, essa promessa pode se revelar apenas outra forma de barbárie.
O quadro que se desenha ao final é inquietante. As lideranças que, nas últimas décadas, sustentaram a defesa do Estado de direito e de uma sociedade minimamente justa parecem hoje exauridas, quando não desacreditadas. Há um cansaço difuso, quase uma fadiga moral, que atravessa o discurso público e mina a capacidade de mobilização em torno de valores coletivos. As trincheiras que antes ofereciam algum grau de resistência vêm cedendo, uma a uma, diante de uma ofensiva persistente que naturaliza a desigualdade e banaliza a erosão das regras. E o mais inquietante talvez não seja apenas o avanço dessa lógica, mas a ausência, no horizonte imediato, de um contraponto claro, capaz de reorganizar forças, reconstruir confiança e reabrir a possibilidade de um projeto comum que não se resuma à sobrevivência individual em meio ao esfacelamento do todo.
Lula e o contraponto qualificado
Em recente discurso em encontros internacionais na Espanha, Lula recolocou o debate em outro registro: o de que a história não é um movimento linear de decadência, mas um campo aberto de disputas e reconstruções. Ao lembrar que a humanidade já atravessou guerras, crises econômicas profundas e períodos de regressão política – e, ainda assim, foi capaz de erguer instituições mais inclusivas e pactos sociais mais amplos –, ele sugere que o esgotamento atual pode ser também o prenúncio de uma inflexão positiva. Nessa leitura, o cansaço da resistência não precisa significar rendição, mas pode, ao contrário, abrir espaço para novas formas de mobilização, menos ancoradas em fórmulas do passado e mais ajustadas às condições do presente. Se o tecido coletivo se encontra hoje tensionado, isso não implica sua dissolução definitiva, mas antes um chamado, ainda difuso, à sua recomposição. A questão, portanto, talvez não seja apenas diagnosticar o colapso, mas reconhecer, mesmo em meio à fadiga, os sinais de que a capacidade de reconstrução social e política permanece viva.
(1) Leia o “O fracasso dos governantes“, um artigo de 2021, onde detalho um pouco mais as situações colocadas pelo filme.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Clique para ler “O sultão da corrupção“, de Gerson Almeida.






