
O Polymarket é uma plataforma americana de mercados de previsão, na qual usuários compram e vendem contratos vinculados a eventos futuros. No mercado sobre quem venceria a eleição presidencial no Brasil, em 12 de maio – um dia antes do vazamento do áudio entre Flávio Bolsonaro e Daniel Vorcaro –, Flávio aparecia com 43% de chance, à frente de Luiz Inácio Lula da Silva, com 39%. Renan Santos tinha 6% e Romeu Zema, 4%. O mercado acumulava cerca de US$ 77 milhões em volume negociado.
Dois dias depois do vazamento, em 15 de maio, às 14h, a dianteira se inverteu: Lula subiu para 45%, enquanto Flávio caiu para 29%, abrindo uma diferença de 16 pontos percentuais.
Os percentuais do gráfico abaixo também indicam o retorno potencial de cada aposta. No caso de Lula, uma chance de 45% significa que o contrato “sim” custava aproximadamente US$ 0,45. Como cada contrato vencedor paga US$ 1, um apostador que comprasse US$ 1 em contratos de Lula adquiriria cerca de 2,22 contratos. Se Lula vencer, receberá aproximadamente US$ 2,22 no total, obtendo lucro de cerca de US$ 1,22 sobre cada dólar apostado. Se Lula perder, o valor investido irá a zero. Em outras palavras: quanto maior a probabilidade atribuída pelo mercado, menor o retorno potencial; quanto menor a probabilidade, maior o ganho caso o evento improvável aconteça.
Gráfico 1. Probabilidades implícitas no Polymarket para a eleição presidencial brasileira de 2026

Fonte: Polymarket, mercado “Brazil Presidential Election”, consulta realizada às 14h05 de 15/05/2026, horário de Brasília.
À primeira vista, isso parece confirmar a tese otimista sobre os mercados de previsão: eles seriam mecanismos capazes de processar rapidamente novas informações e transformá-las em probabilidades. Quando uma notícia negativa atinge um candidato, os preços se ajustam. Quando um candidato alternativo parece mais viável, suas chances sobem. O mercado, nesse sentido, funcionaria como um agregador eficiente de expectativas.
Os preços das apostas podem até ser informativos, mas isso não significa que todos os participantes contribuíram igualmente para sua formação. O artigo acadêmico Prediction Market Accuracy: Crowd Wisdom or Informed Minority? de Roberto Gómez-Cram, Yunhan Guo, Theis Ingerslev Jensen e Howard Kung analisa o universo de transações do Polymarket e conclui que a precisão desses mercados não vem da “sabedoria das multidões”, mas de uma pequena minoria de operadores informados. Segundo o estudo, cerca de 3% das contas são classificadas como traders habilidosos, e são elas que geram a maior parte da descoberta de preços. Suas operações antecipam preços futuros, resultados finais e reagem rapidamente quando uma notícia chega. A maioria dos participantes, por outro lado, gera volume, mas pouca informação; nas palavras do próprio resumo do artigo, ela “financia” a minoria informada.
A reportagem do Cinco Días, do grupo El País, intitulada ¿Quién gana y quién pierde en Polymarket? Muchos apuestan, escrita por Elisa Taska, mostra que 70,8% dos usuários do Polymarket perdem dinheiro; o 0,1% que mais ganha concentra 58,5% dos lucros; e o 1% concentra 84,1%. A reportagem compara esse ambiente a uma mesa de pôquer com cartas marcadas: o investidor comum entra achando que participa em igualdade, mas enfrenta operadores sofisticados, algoritmos e agentes com informações privilegiadas.
No Reino Unido, a cultura de apostas é antiga, ligada a corridas de cavalos, esportes e eventos públicos, e as apostas políticas acabaram sendo tratadas como uma extensão desse mercado. Mas o escândalo de 2024 mostrou os riscos desse modelo. Pessoas próximas ao governo conservador de Rishi Sunak foram investigadas por apostar na data da eleição antes do anúncio oficial, sob suspeita de uso de informação privilegiada. O caso, apelidado de “Gamblegate”, revelou o problema central: quando o resultado apostado depende de uma decisão estatal ou de uma informação restrita, a aposta deixa de ser apenas um exercício de previsão e passa a criar incentivos para abuso.
Algo semelhante pode ocorrer quando o mercado depende de um dado específico e verificável. O caso da manipulação de um termômetro no aeroporto Charles de Gaulle, em Paris, ilustra esse risco: se há dinheiro apostado em uma medição, pode surgir incentivo para interferir na própria medição.
Nesses casos, o mercado deixa de ser apenas um termômetro das expectativas e passa a influenciar o fenômeno que deveria apenas observar. A questão, portanto, não é apenas saber se os mercados de previsão ajudam a enxergar o futuro com mais clareza. É saber se, ao fazê-lo, eles não acabam também alterando os incentivos de quem tem poder para produzir esse futuro.
Essa ambiguidade é o que torna esses mercados tão atraentes e problemáticos. Eles podem ser prejudiciais ao apostador comum, mas úteis para quem observa seus preços como termômetro político. Podem concentrar ganhos de forma injusta, mas também revelar expectativas que pesquisas e análises tradicionais ainda não captaram. Podem até funcionar como hedge político: alguém muito exposto a um resultado indesejável poderia, em tese, apostar nesse próprio resultado para compensar parte da perda caso ele se concretize.
Foi o que parece ter ocorrido no caso de Kevin Craig, candidato do Partido Trabalhista britânico afastado depois que veio à tona que havia apostado na própria derrota. Para os leitores interessados nos escândalos britânicos envolvendo apostas eleitorais, vale consultar o verbete da Wikipédia sobre o caso.
Em abril de 2026, o governo brasileiro determinou o bloqueio de plataformas de mercado preditivo, sob o argumento de que elas ofereciam apostas sobre temas políticos, culturais, sociais e de entretenimento fora das modalidades permitidas pela legislação brasileira. Já os defensores do modelo britânico – que permite esse tipo de mercado sob forte regulação – argumentam que essa proibição também tem custos: o mercado pode migrar para apostas informais ou para sites estrangeiros, mais difíceis de fiscalizar. Ainda assim, a decisão do governo me parece justificável. No caso das apostas políticas, o valor social me parece limitado, enquanto os riscos são elevados. O custo de fiscalização tende a ser desproporcional, sobretudo quando envolve eventos que os próprios agentes públicos controlam.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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