Há coisas que não se esquecem. Diz o ditado que quem apanha não se esquece. Mas quem se acostumar a bater, também não esquece o hábito. A brutalidade é inesquecível nas costas de quem apanha e nas mãos de quem açoita.

Na loja vazia de clientes sobravam vendedores e seguranças. Câmeras ostensivas, brutamontes engravatados, olhares vigilantes que anunciavam alerta contra eventuais furtos das valiosidades vendidas ali. Vestidos chiques de tecidos finos. Coisas únicas vindas de lugares distantes. A chegada de Antônio mobilizou todos os olhares. O preto da sua pele contrastava com a brancura da mobília e da pele das esbeltas vendedoras.

O segurança, há muito parado no mesmo lugar, viu na presença de Antônio motivo para se mover e enrugar os músculos. As vendedoras hesitavam entre a ambição de uma venda que lhes parecia improvável e o medo de um crime que lhes parecia iminente. Foi o segurança que lhe fez as honras. “Você vai comprar alguma coisa?”. “Ainda não sei”, respondeu Antônio, com a expressão neutra de quem aprendeu que qualquer emoção vai ser interpretada a seu desfavor.

Há poucos quilômetros dali, na mesma loucura de cidade, em região sem luxo, mas com os mesmos medos, Margareth mantém sua confecção de roupas de luxo. Funciona dia e noite sem parar nos fundos de um imóvel despretensioso. Nos fundos dos fundos, dormem os que cortam, costuram e bordam os vestidos que, após ganharem uma etiqueta, valerão dezenas de milhares.

O trabalho da gente presa lá não vale sua comida. Comem comida simples, fria e barata. Bebem água turva de um bebedouro que em sua década de funcionamento jamais teve seu filtro trocado. Dormem em colchões no chão, amontoados em um cubículo. Um único banheiro, com apenas o buraco no lugar da privada, completa o conjunto arquitetônico da cela em que dormem cinco horas por noite. O resto do tempo é passado no trabalho. Ao final do mês, nada recebem. Terminam devendo a comida e abrigo dos 30 dias.

Antônio tocou em um dos vestidos, fazendo o segurança aproximar-se ainda mais. As vendedoras recuaram ainda mais. O olhar de prontidão do segurança avisava a Antônio que ele estava passando dos limites. “Sabe quanto custa isso aí?”, perguntou o segurança tentando fazer com que Antônio visse o mundo segundo suas razões de capitão do mato. “Sei…”, respondeu Antônio com a calma e placidez que lhe eram habituais. “Não sabe não. Custa mais de 15 mil”, sentenciou o segurança para deixar claro que aquele lugar não era para Antônio e que aquele tecido não era para suas mãos. “Não. Custa mais do que isso. Custou algumas vidas”.

O segurança lamentou não ter uma arma. O dono da loja se esforçava para providenciar uma para ele, mas quis a burocracia que até aquele momento perigoso como a presença de Antônio na loja perfumada fosse resolvido com outras violências. “Você precisa sair daqui. Chega. Saia!”.

Antônio parecia não ouvir. Sentia o tecido e olhava a costura. Era capaz de dizer quem fez aquela costura. Pelos mínimos defeitos, sabia dizer quais mãos baratas de seus companheiros de cativeiro manipularam aquele tecido caro.

Aquele em especial, certamente era de Clementina. Sinal de que ainda estava viva. Sinal de esperança do reencontro. Esperança de um dia ela poder, tal como ele, sair dos açoites de seu cativeiro fechado para viver os açoites do cativeiro aberto.

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Ilustração: Mihai Cauli
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