
Equilibrar bebidas aos montes na bandeja e ainda perambular com desenvoltura de bailarino pelo salão lotado de mesas foi a lição mais fácil. A mais difícil foi equilibrar o ânimo morando longe, trabalhando muito, dormindo pouco, ganhando quase nada, ouvindo desaforo e ter de sorrir, subserviente. A tal da subserviência é difícil para Antônio aceitar, na pujança de seus vinte e poucos anos. Já para Paraíba, mestre dos trabalhos nos bares das noites, essa foi uma lição há muito aprendida e que tenta ensinar ao jovem em quem reconhece seu eu do passado.
Paraíba não é paraibano. É carente. Mas para os cariocas, todo nordestino é paraíba. No começo reagia. “Sou cearense!”. Não adiantava. Desistiu. Não tinha nada contra a Paraíba. Até gostava das lembranças de infância, quando passava férias na casa da madrinha em João Pessoa. Mas logo entendeu que havia desdém no apelido dele. Havia o tom de deboche que o incomodava. A arrogância intrínseca ao vocativo. Sabia que era para colocá-lo no seu lugar de serviçal. Com o tempo e alguma amargura, aceitou o apelido e o lugar. De fato, não tinha dinheiro, estudo ou chances de qualquer outra vida que não a de subalterno. O incômodo foi domado pelo instinto de sobrevivência.
Antônio já estava sendo chamado de Paraibinha. Franziu a testa. Era pernambucano. E também não adiantava explicar detalhes geográficos e culturais do Nordeste. Apelido é para espelhar uma realidade e, no caso, a realidade era que ele era condenado à subalternidade, onde a grande virtude é trabalhar duro e ser injuriado sem reclamar e mostrar-se grato por lhe deixarem viver dos restos de uma sociedade que encontra no esbanjamento um jeito de driblar o vazio de uma existência sem propósito que não o dinheiro.
Esperto, Antônio prestava atenção aos cacos de conversa que ouviam nas mesas dos clientes. Quase sempre falavam como se ele não estivesse ali, como se não existisse. “Esta sociedade é injusta e opressora, cara! Não tem jeito! Só quando a classe operária tomar o poder essa injustiça muda! Ei! Aqui, cadê meu chope? Faz meia hora que eu pedi! Que serviço de merda este aqui!”. Antônio assentia com a cabeça e sorria. Às vezes, respondia com um automático “É pra já, patrão!”. No fundo, queria dizer “vai pegar você mesmo, seu idiota!”.
Noutra mesa, a mocinha um pouco mais nova olhava Antônio de cima a baixo. Olhar entre a vontade de intimidades e o nojo social. “Vem cá!”, chamou logo depois de um assobio, como quem chama um cão. “Pois não!”. “Quero um desses aqui, gato!”, disse com malícia. “Pois não. Mais alguma coisa?”. “Quero… Mas deixa pra lá…”. Disse mordendo o lábio e o olhando da cintura para baixo. As amigas riram. Antônio fez que não viu. “Que nojo, amiga!”, ouviu entre as gargalhadas enquanto se afastava da mesa.
No fim da noite, contava essas coisas para Paraíba. Este ouvia com paciência paternal e coração sentido. Respondia consolando e aconselhando. Quando tudo terminava, na solidão do ônibus, Paraíba pensava no quanto seus conselhos para que Antônio aceitasse sua condição o desconsolava nessa vida subalterna que se repete eternamente.
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Ilustração: Mihai Cauli
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