No Brasil, o poder econômico externo nunca foi neutro: a potência que compra, vende e financia molda produção, território e investimento.

Durante o período colonial, Portugal impôs ao Brasil o exclusivismo metropolitano. A colônia deveria exportar seus produtos por intermédio de comerciantes portugueses e importar, também por Portugal, grande parte das mercadorias de que necessitava. A política colonial não se limitava ao comércio, restringindo a instalação de manufaturas, controlando a circulação de riquezas e subordinando a economia brasileira aos interesses da metrópole.
A primeira grande ruptura ocorreu em 1808, com a transferência da família real portuguesa para o Rio de Janeiro. Protegida pela esquadra britânica, a Corte decretou a Abertura dos Portos às Nações Amigas e encerrou formalmente o monopólio comercial português. A medida ampliou o comércio exterior com a crescente centralidade da Inglaterra.
Os Tratados de Aliança e Amizade e de Comércio e Navegação, assinados em 1810, concederam vantagens extraordinárias aos produtos britânicos. As mercadorias inglesas passaram a pagar tarifa de 15%, inferior à aplicada inicialmente aos produtos portugueses e aos provenientes de outras nações. A indústria britânica conquistou, assim, acesso privilegiado ao mercado brasileiro.
Depois da Independência, em 1822, essa presença se aprofundou. O Império brasileiro passou a depender de empréstimos, bancos, seguradoras, companhias comerciais, ferrovias, serviços urbanos, navios e produtos industrializados britânicos. A relação com a Inglaterra combinava abertura comercial, crédito, investimentos em infraestrutura, tratados diplomáticos e imposição de interesses estratégicos.
O combate britânico ao tráfico transatlântico de africanos escravizados foi uma das expressões dessa influência. O Brasil assumiu, em convenção com a Grã-Bretanha, o compromisso de encerrar o tráfico, mas durante décadas as determinações foram descumpridas. Em 1845, o Parlamento britânico aprovou o chamado Bill Aberdeen, que autorizava a Marinha inglesa a apreender navios envolvidos no tráfico e a julgar suas tripulações. Essa pressão contribuiu para a aprovação da Lei Eusébio de Queirós, em 1850, que estabeleceu medidas mais eficazes para reprimir a entrada de africanos escravizados no Brasil.
A relação com a Inglaterra moldou profundamente o Brasil monárquico. O país permaneceu exportador de açúcar, algodão e, sobretudo, café, enquanto importava produtos industrializados, equipamentos e capitais. Quem financiava, transportava e segurava o comércio brasileiro também influenciava a organização de sua economia.
A hegemonia inglesa perdeu força com as transformações do final do século 19 e, principalmente, com a Primeira Guerra Mundial, que expôs os limites do liberalismo. Os Estados Unidos emergiram como potência industrial, financeira e militar, ampliaram as compras de café e assumiram gradualmente a posição de principal referência externa do Brasil.
A partir da década de 1940, a influência estadunidense tornou-se mais ampla do que a exercida anteriormente pela Inglaterra. Não se restringia ao comércio, ao crédito ou aos investimentos. Os Estados Unidos passaram a difundir um modelo de organização econômica, administrativa, científica e cultural apresentado como caminho para um futuro de “abundância e liberdade”.
Durante a Segunda Guerra Mundial, essa aproximação foi acompanhada pelos acordos de 1941 e 1942. O Brasil autorizou a instalação de bases militares norte-americanas no Nordeste, mobilizou a produção de borracha na Amazônia e aproximou-se da estratégia hemisférica dos Estados Unidos. Em contrapartida, obteve apoio para a Companhia Siderúrgica Nacional, para a modernização militar e para projetos de infraestrutura.
A cooperação técnica previa o compartilhamento de conhecimentos e capacidades, o envio de conselheiros e missões de especialistas a governos e empresas, o financiamento e a administração de serviços públicos, a criação de laboratórios e projetos-piloto, a formação de pesquisadores, os intercâmbios universitários e a distribuição de livros, filmes e publicações.
Entre as principais iniciativas estiveram a Missão Taub e a Missão Cooke, ambas de 1942; a Missão Abbink, de 1948; o programa Ponto IV, lançado pelo governo Harry Truman em 1949; e a Comissão Mista Brasil-Estados Unidos para o Desenvolvimento Econômico, que funcionou entre 1951 e 1953. Essas iniciativas ofereciam assistência técnica, planejamento, financiamento e formação profissional. Ao mesmo tempo, disseminavam padrões estadunidenses de administração, produtividade, educação, consumo e organização empresarial.
Para os Estados Unidos, a assistência técnica apresentava pelo menos três vantagens. Era relativamente barata, permitia manter sob influência ocidental a formação das elites administrativas e criava oportunidades para investimentos privados norte-americanos. Os especialistas identificavam obstáculos, propunham obras e reorganizavam instituições. Posteriormente, empresas e bancos poderiam participar do financiamento, do fornecimento de máquinas e da execução dos projetos.
Assim, a hegemonia norte-americana penetrou mais profundamente na sociedade brasileira do que a inglesa. Alcançou a indústria, as Forças Armadas, as universidades, os órgãos públicos, os meios de comunicação, os hábitos de consumo e a própria ideia de modernização.
Neste primeiro terço do século 21, a ascensão da China inaugura uma terceira forma de relacionamento com uma potência central. Ela não reproduz exatamente o domínio comercial britânico nem o modelo estadunidense das missões de assistência técnica.
A presença chinesa combina demanda por produtos brasileiros, investimentos empresariais, financiamento de infraestrutura, cooperação científica, transferência e desenvolvimento conjunto de tecnologia, transição energética e integração logística. As relações diplomáticas entre Brasil e China foram estabelecidas em 1974, mas a cooperação tecnológica ganhou dimensão estratégica com o Programa Sino-Brasileiro de Satélites de Recursos Terrestres, o CBERS, instituído em 1988. O programa permitiu o desenvolvimento conjunto de satélites e tornou-se um dos principais exemplos de cooperação tecnológica entre países do Sul Global.
Em 1993, Brasil e China estabeleceram uma parceria estratégica. Em 2004, criaram a Comissão Sino-Brasileira de Alto Nível de Concertação e Cooperação, a Cosban, destinada a coordenar o relacionamento bilateral em áreas como comércio, investimentos, energia, agricultura, ciência, tecnologia, educação e cultura. Em 2012, a relação foi elevada à condição de Parceria Estratégica Global e passou a contar com um Plano Decenal de Cooperação.
O Plano de Ação Conjunta de 2015 ampliou a cooperação em infraestrutura, energia, mineração, manufatura, agricultura, inovação e transportes. Em 2017, entrou em funcionamento o Fundo Brasil-China de Cooperação para a Expansão da Capacidade Produtiva, concebido para apoiar investimentos de médio e longo prazo em infraestrutura, tecnologia e capacidade industrial.
Em 2023, os dois governos assinaram 15 acordos e memorandos em áreas como comércio, agricultura, inovação, ciência e tecnologia, economia digital, cooperação espacial, energia, comunicações e combate à fome. Também foram ampliadas as possibilidades de pesquisa conjunta entre instituições públicas, empresas e universidades. No ano de 2024, a relação foi elevada à chamada Comunidade de Futuro Compartilhado Brasil-China por um Mundo mais Justo e um Planeta mais Sustentável, com maior ênfase no desenvolvimento sustentável.
Na mesma ocasião, os governos decidiram aproximar a cooperação chinesa de programas brasileiros como o Novo PAC, a Nova Indústria Brasil e as Rotas de Integração Sul-Americana. O acordo procura articular financiamento, infraestrutura, desenvolvimento produtivo, transformação digital e transição ecológica, sem que o Brasil tenha aderido formalmente à Iniciativa Cinturão e Rota. Em 2025, a cooperação avançou para estudos conjuntos sobre uma ligação ferroviária continental entre o Brasil e o Porto de Chancay, no Peru. O projeto está diretamente relacionado à formação de um Brasil bioceânico, capaz de utilizar portos do Atlântico e do Pacífico para ampliar sua participação no comércio mundial.
Essa aproximação ganhou novo impulso com o tarifaço promovido pelo governo Donald Trump. Em 2025, os Estados Unidos elevaram para até 50% as tarifas incidentes sobre parte dos produtos brasileiros, embora tenham estabelecido diversas exceções. Em julho de 2026, Washington anunciou uma nova sobretaxa de 25% sobre um conjunto de mercadorias brasileiras, com início previsto para o dia 22 de julho.
Ao dificultar a entrada de produtos brasileiros no mercado norte-americano, o tarifaço tende a estimular a busca por outros destinos comerciais, produzindo um resultado contrário ao pretendido por Washington. Em vez de recolocar o Brasil na órbita norte-americana, tende a acelerar sua aproximação com a China, fortalecer a diversificação das relações internacionais e ampliar a participação brasileira em mecanismos como os Brics.
A diferença em relação ao modelo estadunidense é relevante. Os Estados Unidos procuravam formar elites, reorganizar instituições e disseminar diretamente seus padrões administrativos e culturais por meio de missões, conselheiros e programas educacionais. A China atua principalmente por meio do comércio, do crédito, da construção de infraestrutura, dos investimentos produtivos e da cooperação tecnológica entre instituições.
Isso não torna a relação automaticamente equilibrada. O Brasil exporta sobretudo soja, minério de ferro, petróleo, carnes e celulose, enquanto importa da China máquinas, componentes eletrônicos, produtos químicos, veículos, equipamentos de telecomunicações e tecnologias de energia renovável. A relação com a China somente representará uma etapa superior à dependência inglesa e à subordinação norte-americana se o Brasil utilizar o comércio e os investimentos para ampliar sua própria capacidade produtiva.
O país não pode apenas substituir Londres por Washington e Washington por Pequim. A lição dos últimos dois séculos indica que cada potência que se torna o principal mercado, financiador ou fornecedor do Brasil passa a influenciar o que o país produz, como organiza seu território e quais setores recebem investimentos.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
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