As Big Techs conquistam e dirigem mentes, é um novo tipo de império.

Em 1857, o mundo assistiu a um fato que costuma ser tratado como episódio colonial, mas que talvez devesse ser lido como uma das primeiras grandes crises da globalização capitalista. A Revolta Indiana – cujo símbolo mais conhecido foi o Cerco de Lucknow – revelou que a Companhia das Índias Orientais, uma grande empresa privada da época, já não conseguia sustentar o domínio político que havia construído pela esfera econômica. Naquela oportunidade, a resposta britânica foi brutal e esclarecedora, substituindo uma das maiores companhias privadas da primeira onda de globalização capitalista pela governança da Índia, com a imediata e direta intervenção da Coroa, em 1858.

A lição histórica é desconfortável para os defensores do mercado absoluto. Naquela onda de globalização liderada pela Inglaterra entre a terceiro quarto do século XIX e o primeiro quinto do século XX, o capital privado foi capaz de abrir rotas, financiar expedições, organizar exércitos, cobrar tributos e administrar territórios sob a hegemonia inglesa. Mas, quando a ordem social entrou em colapso, a empresa privada precisou ser salva pelo Estado britânico. O império não era um subproduto do mercado, uma vez que era evidente que o mercado dependia do próprio Estado imperial.

Quase dois séculos depois, a pergunta retorna sob o formato da atuação das big techs nesta segunda onda da globalização capitalista centrada nos Estados Unidos. Em que medida elas ascenderiam atualmente à condição de novas formas de atuação enquanto uma espécie de Companhia das Índias?

A comparação parece exagerada apenas à primeira vista. As antigas companhias privadas controlavam portos, navios, mapas e fluxos comerciais. As novas plataformas das big techs vão além. Elas controlam nuvens computacionais, satélites, algoritmos, sistemas operacionais, publicidade digital, inteligência artificial e gigantescas bases e redes de dados que não reconhecem fronteiras enquanto soberania nacional.

Se, ontem, o poder passava pelas rotas marítimas, nos dias de hoje, passa adicionalmente por cabos submarinos, data centers e modelos de IA. A diferença decisiva é que a colonização deixou de ser principalmente pela governança presencial e física das pessoas no territorial para se tornar cada vez mais informacional.

No cenário ocidental, grandes empresas privadas como Amazon, por exemplo, detém cadeias logísticas mais detalhadas do que muitos governos. O Google, por outro lado, organiza a circulação global do conhecimento, enquanto a Meta intermedeia relações sociais de bilhões de pessoas.

Por seu turno, a Microsoft opera infraestruturas críticas de Estados, ao passo que Palantir ocupa um lugar ainda mais inquietante, pois transforma dados em inteligência estratégica, inclusive em contextos militares. Todas essas big techs são grandes corporações transnacionais que não vendem apenas software, mas capacidade de enxergar, correlacionar, prever e decidir. Em outras palavras, o comércio de uma parte do que durante séculos foi considerado o núcleo da soberania nacional. Um provocativo ponto de realidade que destaca justamente o processo em curso de privatização gradual da razão de Estado.

Relembra, assim, que as antigas companhias das Índias possuíam exércitos privados. As big techs de hoje possuem infraestruturas cognitivas privadas. O soldado continua importante, mas o algoritmo que seleciona alvos, classifica riscos, prioriza informações e orienta decisões pode ser ainda mais decisivo. O campo de batalha contemporâneo não é apenas geográfico, mas também estatístico, computacional e preditivo.

Há quem celebre isso como eficiência. Convém questionar sobre o papel da eficiência: para quem? Quando uma plataforma pode definir o que pode ser visto, quando um sistema de IA pode influenciar crédito, emprego, consumo, segurança e conflitos armados, não parece mais se tratar de um simples serviço privado. É uma forma de poder que não passa pelo sufrágio eleitoral, mas se distancia da resposta direta ao controle democrático e opera em escala transnacional.

Os liberais do século XIX acreditavam que o comércio reduziria a importância da política. O século XX mostrou o contrário, pois após duas grandes guerras mundiais e a depressão econômica de 1929, coube ao Estado de bem-estar revelar que o capitalismo precisava de estruturas políticas robustas.

O século XXI parece repetir a ironia histórica. Após várias décadas de domínio neoliberal em defesa do “fim do Estado”, as próprias corporações digitais dependem de contratos públicos, proteção jurídica, subsídios, energia, semicondutores e apoio geopolítico.

Sem o papel do Estado norte-americano, por exemplo, dificilmente haveria Vale do Silício tal como atualmente se conhece. Mas será que sem pesquisa militar, universidades públicas, compras governamentais e financiamento estatal, a revolução digital teria alcançado a mesma escala?

O debate inteligente não se refere à visão mecanicista de Estado versus mercado. Mas, sim, de quem comandará as infraestruturas que organizam a vida coletiva frente aos avanços da transformação digital.

A disputa entre Estados Unidos e China explicita essa mudança de posição estratégica do papel do Estado. Não se trata apenas de uma competição comercial, pois o que está em disputa pela soberania alcança a dimensão de chips, nuvem, IA, satélites, dados e padrões tecnológicos. Mais do que crescimento econômico, prevalece a capacidade de governança sobre sociedades inteiras.

E o Brasil? Aqui, a questão assume contornos ainda mais delicados diante das infraestruturas digitais, dados estratégicos e capacidade de processamento. Não se impõe, necessariamente, como destino de dependência, mas como oportunidade histórica de afirmação nacional. O país reúne condições raras para participar da disputa pela soberania digital em posição mais favorável do que costuma admitir. Possui uma das maiores populações conectadas do planeta, um sistema financeiro altamente digitalizado, capacidade científica relevante, instituições públicas produtoras de dados em escala continental e experiência histórica de construção de infraestruturas nacionais.

A verdadeira pergunta, portanto, não é se o Brasil será recolonizado digitalmente, mas se terá ambição de transformar seus dados, sua ciência e seu mercado em instrumentos de desenvolvimento soberano. Ao contrário do século XIX, quando a periferia exportava matérias-primas e importava manufaturas, a era digital abre a possibilidade de agregar valor por meio de inteligência artificial, estatística, computação, biotecnologia, serviços digitais e economia verde. Dados sobre território, clima, biodiversidade, agricultura, mobilidade, saúde e energia podem deixar de ser apenas registros administrativos para se tornar ativos ainda mais estratégicos de planejamento, inovação e competitividade.

Nesse contexto, as instituições públicas de produção de conhecimento como IBGE, universidades, centros de pesquisa, empresas estatais tecnológicas, agências de fomento, entre outras, não representam um resíduo do passado desenvolvimentista. Correspondem, sim, à infraestrutura cognitiva de um país que deseja participar da economia do século XXI sem abrir mão de sua capacidade de decidir soberanamente sobre o presente e o futuro.

O desafio brasileiro, portanto, parece ser menos tecnológico e mais político, sobretudo quando a articulação do Estado, ciência e setor produtivo em torno de uma estratégia nacional de soberania digital se torna centralmente estratégico. Como se sabe, nenhuma grande potência tecnológica surgiu apenas da espontaneidade do mercado. Estados Unidos, China, Coreia do Sul e União Europeia mostram, cada um à sua maneira, que a inovação em escala depende de coordenação pública, financiamento, regulação inteligente e visão de longo prazo.

O Brasil já demonstrou capacidade de construir sistemas complexos – da indústria aeronáutica ao agronegócio tropical, do SUS ao sistema financeiro eletrônico. A próxima fronteira poderia ser a construção de infraestruturas nacionais de dados, nuvem, inteligência artificial e estatísticas avançadas, conectadas às necessidades do conjunto da sociedade, não apenas aos interesses das plataformas globais.

Por isso, a era digital pode representar não uma condenação periférica, mas uma chance de inaugurar um novo ciclo de desenvolvimento. Um país continental, biodiverso, urbanizado e intensamente conectado tem condições de transformar informação em conhecimento, o conhecimento em inovação e a inovação em bem-estar coletivo.

A questão decisiva está em saber se o Brasil superará a condição de ser mercado consumidor de algoritmos produzidos no exterior ou se tornará produtor de inteligência, tecnologia e capacidade de planejamento para si e para o Sul Global. Uma escolha aberta que se encontra em curso. E, diferentemente do que ocorreu na ordem colonial do século XIX, ela pode ser feita democraticamente. Por isso, a lembrança de Lucknow deixa de ser uma curiosidade histórica para se tornar uma advertência contemporânea. Em 1857, uma empresa privada avançou além de sua capacidade de legitimação e precisou ser substituída pelo Estado Britânico.

Em 2026, talvez esteja sendo posto em marcha um movimento inverso, quando os Estados transferem parcelas crescentes de sua capacidade de ver, calcular, prever e decidir para corporações digitais privadas. Por isso, a pergunta final é deliberadamente incômoda, sobretudo quando a inteligência estratégica, a infraestrutura de dados e os sistemas de decisão de uma sociedade dependem de empresas privadas globais: – quem governa de fato?

Para o segundo quarto do século XXI, algo mais ambíguo e poderoso parece estar em curso: o capitalismo tecno-imperial, no qual o território continua sendo importante, mas o domínio decisivo passa a ser o controle da informação, dos algoritmos e da capacidade de antecipar comportamentos. As Companhias das Índias conquistavam portos. As big techs conquistam e dirigem mentes. Esse novo tipo de império cognitivo pode ser mais profundo e duradouro que impérios territoriais. A ver.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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