Inesquecível talvez seja um adjetivo brando para o triunfo de Lula no último domingo, no segundo turno do processo eleitoral no Brasil. Épica, sensacional, retumbante ou outros adjetivos mais fortes poderiam ser encontrados. Não importa. No que deve ter sido o último processo eleitoral enfrentado pelo velho metalúrgico Lula no país, que provavelmente é o maior líder político nacional da história, e com certeza o maior dos últimos setenta anos, uma virada de tirar o fôlego. Saindo atrás desde o fim do primeiro turno, Lula se recupera e vence de forma acachapante. Desculpem, mas adjetivos aqui não vão faltar.

Como se costumava falar no passado, o velho líder voltou a ganhar nos braços do povo. Carregado em especial pelo ímpeto de uma juventude que voltou a ocupar o protagonismo no cenário político, o velho Lula virou uma eleição que parecia morna no primeiro turno e que nas últimas três semanas voltou como um furacão, o Furacão Lula. Quem viu, participou, não vai esquecer.

Em três semanas, a centro-esquerda conseguiu se ampliar de um movimento que ia da direita (não bolsonarista) até a extrema esquerda. Não importa o detalhe, não importa a coesão que possa ter tido, essa massa que ganhou a eleição se juntava em multidões em cada cidade do país, das menores às maiores, entoando um “olê-olê-olá, Lulá, Lulá” como um mantra, um grito encantado que saía das profundidades da alma para afastar os demônios da extrema direita.

A tomada da Praia de Copacabana, por dez anos reduto das manifestações da extrema direita, foi talvez o elemento de maior valor simbólico destas três semanas, a praia, o calçadão e as pistas foram tomados em várias ocasiões nestas três semanas por multitudinárias manifestações, culminando com a última, na manhã do sábado imediatamente anterior ao dia do segundo turno da eleição. Em São Paulo, isso se deu em uma disputa acirrada pela Avenida Paulista, onde pela primeira vez em muitos anos as manifestações da esquerda e seus aliados claramente ganharam.

Aliás, é fundamental dizer que neste processo do segundo turno, impulsionados especialmente pela juventude, a candidatura Lula e o movimento liderado pelos setores de centro-esquerda conseguiram três importantes vitórias, que catapultaram Lula rumo à vitória. O primeiro deles foi o que vinha sendo descrito aqui: a tomada das ruas, em cada canto do país. A esquerda voltou a fazer o que melhor soube fazer desde a redemocratização do país – tomar as ruas.

Além disso, um processo também quase incompreensível de aglutinação tomou as redes sociais. A ideia dessa aglomeração, que ficou conhecida como “Exército do Lula”, idealizada pelo deputado mineiro André Janones, tomou as redes e com a massa de pessoas se articulando e se movendo em direções massivamente combinadas, obrigou o tal do algoritmo a operar a seu favor. Como um economista não entendedor de redes, estou longe de imaginar onde esse movimento vai dar, mas não há como contestar que ele funcionou na campanha, e na reta final superou os dez milhões de “soldados”, esses que operavam sob comando unificado nessas redes, e “domavam” o algoritmo.

Finalmente, vale apontar a recuperação dos símbolos nacionais, em especial a bandeira nacional e as camisas verde-amarelas da seleção brasileira. Nas últimas manifestações por Lula, o verde-amarelo se misturava ao vermelho tradicional das esquerdas sem qualquer contradição, recuperando da extrema direita as cores tradicionais brasileiras. Se o nome do país sempre foi vermelho (afinal, o tal brasil que dá nome ao país se refere a um corante dessa cor), a bandeira nacional trazia desde a independência o verde e o amarelo das cortes europeias, o verde representando a Casa de Bragança, e o amarelo de um ramo dos Habsburgo austríacos, de onde vinha a imperatriz esposa de D. Pedro I. Dessa vez, as manifestações fizeram com que essas cores dessem as mãos, tudo junto e misturado, nas imensas manifestações de rua que impulsionaram a candidatura de Lula.

Esse impulso monumental construiu uma vitória eleitoral que, para quem viveu, vai ser difícil de esquecer. E, em face de um Congresso extremamente hostil, manter a mobilização vai ser essencial para viabilizar o novo governo. Lula, com a sua extrema e fina sensibilidade política, parece ter percebido isso, ao afirmar no discurso da vitória a necessidade de reforçar a participação social. Se for realmente isso, o Lula 4 vai ser bem diferente do Lula 3, e o talvez último governo do velho líder metalúrgico possa começar a construir uma alternativa, não apenas para o país, mas que sinalize algum caminho importante para a esquerda mundial. Democracia, alternativa de futuro e participação social parecem ser os pilares dessa construção. Mas ainda faltam os conteúdos. Essa multidão que se juntou nas últimas três semanas parece disposta a continuar nas ruas de mãos dadas, disposta a ajudar a defini-los.

Bora, Lula!

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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