Existe forte incerteza sobre os efeitos de uma introdução massiva da inteligência artificial (IA) na economia. As previsões atuais se apoiam em estimativas superficiais e comparações com tecnologias radicais anteriores. No entanto, a IA se diferencia por ser uma tecnologia de propósito geral (TPG), com uso amplo e irrestrito, capaz de transbordar para todos os setores da economia, e não apenas para segmentos específicos.

O impacto da introdução massiva de IA na composição orgânica do capital pode levar a uma forte pressão sobre a taxa de lucro. A IA implica uma relação muito alta entre capital constante (c) e capital variável (v). Em casos de produção quase que totalmente automatizada, o trabalho vivo se aproxima de zero, reduzindo o valor excedente (s) e, consequentemente, a taxa de lucro. O exército industrial de reserva aumenta com a automação, amplia o contingente de trabalhadores desempregados ou subempregados, pressionando salários para baixo e reforçando a superexploração.

Essa dinâmica confirma a famosa “lei da queda tendencial da taxa de lucro” de Marx. Um capitalismo com lucro zero é inviável: sem retorno, não há investimento. Assim, a expansão da IA parece anunciar a ruína do capitalismo. Esse é o paradoxo da automatização. Embora cada capitalista individual possa lucrar ao introduzir processos intensivos em capital, a classe capitalista como um todo reduz a quantidade de trabalho vivo, diminuindo o valor excedente e a taxa de lucro.

Essa contradição já era prevista por economistas marxistas do início do século XX. Dela surge a questão: a IA acabará com o capitalismo? Ou Marx estaria equivocado? Um simples exercício abstrato, correndo o risco de ser criticado pela superficialidade, ajuda a esclarecer se o capitalismo vai acabar ou não.

Consideremos uma economia composta por dois setores. O primeiro setor com alta composição orgânica do capital e produção quase que totalmente automatizada. O segundo setor intensivo em trabalho com baixa composição orgânica, onde apenas o trabalho humano pode gerar valor composto por atividades de cuidado, esportes, gastronomia, ensino, escrita criativa, entre outras.

A relação dinâmica entre os dois setores no processo para equalizar as taxas de lucro faz com que os lucros do setor automatizado não desapareçam, pois os preços de produção equalizam as taxas de lucro entre setores. A substituição de mão de obra em um setor será compensada pela criação de novos processos intensivos em trabalho no segundo setor.

O risco de uma economia totalmente automatizada pela IA ocupar toda a economia e fazer com que a taxa de lucro tenda a zero só poderia ocorrer pela ausência de valor excedente e pela insuficiência de demanda agregada, já que salários próximos de zero inviabilizam o consumo. Em ambos os casos, a sobrevivência do capitalismo depende da expansão de setores intensivos em trabalho ou de uma redistribuição massiva de renda.

A IA não necessariamente condena o trabalho humano. Atividades em que o trabalho não pode ser substituído pela IA tendem a florescer. Embora muitas ocupações sejam desqualificadas, outras se tornarão mais sofisticadas, exigindo níveis de habilidade superiores aos da IA. A competição não será apenas entre humanos, mas entre humanos e máquinas. Ainda assim, haverá sempre um segmento de trabalho valorizado por sua autenticidade e criatividade, por exemplo, nas artes e nos esportes, entre outros.

Atualmente, na economia brasileira a IA está sendo implantada em setores como manufatura, logística e agronegócio, para otimizar processos, reduzir custos e aumentar a produtividade. Isso tende a reduzir postos de trabalho operacionais, mas cria demanda por técnicos e engenheiros especializados.

O sistema financeiro, bancos e fintechs usam a IA em análise de crédito, prevenção de fraudes e atendimento automatizado. O risco é a substituição de funções administrativas, mas há expansão em áreas de ciência de dados e segurança digital.

Na educação e na saúde, a IA pode apoiar diagnósticos médicos e ensino personalizado. No entanto, atividades humanas de cuidado, empatia e criatividade tendem a se valorizar ainda mais e não serão destruídas pela IA.

A adoção da IA pode aumentar a desigualdade regional por ser mais rápida em grandes centros urbanos, ampliando a distância entre regiões desenvolvidas e periféricas.

O crescimento da adoção da Inteligência Artificial é acelerado. O uso de IA na indústria brasileira cresceu mais de 160% entre 2022 e 2024, com quase 42% das empresas industriais já utilizando IA em seus processos. Esse avanço está transformando a composição orgânica do capital, elevando o peso do investimento em máquinas e sistemas digitais em relação ao trabalho humano. Em 2022, apenas 16,9% das indústrias usavam IA. Em 2024, esse número saltou para 41,9%.

A digitalização ampla atinge cerca de 89% das empresas industriais (big data, nuvem, IoT, impressão 3D, robótica). Os setores líderes são equipamentos eletrônicos e de informática (72,3%), máquinas e materiais elétricos (59,3%) e indústria química (58%). Porém, a dependência tecnológica aumentou, pois grande parte das soluções de IA é importada, reforçando a dependência externa.

China, EUA e Brasil: as estratégias de incentivo para introdução da IA

A China aposta em IA como motor de soberania tecnológica, articulando Estado e empresas nacionais. Os Estados Unidos dominam a pesquisa e desenvolvimento em IA, mas enfrentam debates sobre desigualdade e concentração de poder em grandes corporações. O Brasil ainda carece de uma política industrial robusta para IA. O risco é repetir padrões de dependência tecnológica, sem aproveitar plenamente o potencial de inovação.

Uma economia composta apenas por setores automatizados é incompatível com a manutenção do capitalismo. O futuro dependerá da capacidade de equilibrar a expansão da IA com o fortalecimento de setores intensivos em trabalho e da redistribuição de renda.

O desafio brasileiro é pensar como a IA pode ser incorporada em um projeto nacional de desenvolvimento, sem aprofundar a dependência externa, a desigualdade interna e sem reduzir o trabalho humano a uma função residual. O futuro dependerá de como o Brasil equilibra a automação com a valorização de setores intensivos em trabalho humano.

Mas convém repetir: a introdução massiva da IA no Brasil pode tanto aprofundar a dependência externa e a desigualdade social quanto abrir espaço para um novo projeto nacional de desenvolvimento. Para isso será necessário articular com políticas de inovação industrial, redistribuição de renda e valorização de setores intensivos em trabalho humano.

O futuro do capitalismo brasileiro dependerá de como o país equilibra a automação com a criação de ocupações qualificadas e a democratização da riqueza. A prioridade está na capacidade do governo de elaborar e implantar políticas para a ampliação dos serviços públicos para a cidadania. De modo geral, atividades com baixa composição orgânica do capital necessitam tanto de trabalho técnico como não técnico, criam empregos, geram renda e demanda para contrabalançar o efeito da introdução da IA. O investimento público é essencial. Para isso, temos que aposentar a atual convenção macroeconômica de restrição ao gasto público, altas taxas de juros e conta de capitais abertas.

Ou será que vamos deixar a IA acabar com o capitalismo brasileiro? É uma opção apocalíptica.

***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
Leia também “Caminhos para um Brasil de todos”, de Antonio Prado.