Otário que é otário é feito de otário por quem o vê e logo pensa: taí o otário. Mas, apesar de otário feito que é, a culpa de ser otário é, evidentemente, do otário. Otário é o prego culpado pela martelada. Que merece a martelada! E toda pecha, porque é otário.

Mas o otário não se deixa fazer de otário só por burrice ou ignorância. Pior, deixa-se otário por vontade. Claro que não pela vontade de ser otário, mas por vontade alienada por ambição, desejo ou ilusão.

Otário que é otário quer coisa boa e justa, para ele ao menos. E justamente por isso é confiante em coisas das quais deveria desconfiar. A confiança é o vício do otário. E de todas as confianças viciadas, a mais perigosa é a confiança excessiva que o otário tem em si mesmo.

Os otários não são todos iguais. Diferem pela causa de sua disposição otária de ser otário. Há o apaixonado, que acredita no amor de quem ama o que ele tem, mas despreza o ser que ele é. Amor por interesse. Que o otário acha eterno, mas dura só enquanto houver o que dele é interessante. Ou enquanto o par esperto for capaz de suportar o asco de viver ao lado do otário.

Há os otários ambiciosos. Que acreditam em dinheiro fácil. Sem esforço ou estudo. Perfeitos para serem feitos de trouxa por um esperto que saiba fazer o otário se achar esperto se fazendo de trouxa para ele.

Tipo comum é o otário intelectual, que não é realmente pensante. Só acha que é. Pensa que pensa. Repete coisas pensadas – e ditas – por outros, com a certeza de que fazem sentido. E como pensar é coisa que dá trabalho, falta quem pense no que o otário pensa que pensa para lhe mostrar o quanto ele é otário. Vão deixando e o otário acaba até virando doutor.

O mais fantástico dos otários, porém, é o otário político. Maravilhoso porque reúne num otário só os vícios dos outros três tipos de otário. É apaixonado, ambicioso e intelectual ao mesmo tempo.

É perdidamente apaixonado por algum profissional da política. Sustenta a lógica irracional de que todo político é igual, exceto o seu amado. Mesmo se fizer tudo que os outros políticos profissionais fazem, o político do otário é diferente. Nele, perdoa tudo. Até o imperdoável nos outros. E como amor tem duas faces, odeia quem se opõe ao seu político amado. Nos opositores, até o que é certo é errado para o otário.

Como é movido por paixão, não precisa pensar. Pode agir como o otário intelectual, só repetindo lugares comuns sobre economia, medicina ou qualquer outro assunto que desconheça completamente. Como bom otário pensante, mesmo a realidade lhe comprovando a olhos vistos a ineficácia das fantasias que repete, não as abandona. Otário é leal aos seus vícios.

Na sua ambição otária, o otário político se acha merecedor de privilégios. Afinal, ele faz parte dos gênios que descobriram as conspirações. Todos são corruptos ambiciosos, menos o otário e sua turma, que querem prosperidade. Ainda que só para eles.

Entendo bem de otários porque sou otário. Inelutavelmente otário. Do tipo que escreve inelutavelmente para dizer que é otário. Sou o tipo que escreve cartas otárias que jamais serão respondidas. Como desabafos de um otário que se percebeu otário. Que usa ironia com uma gente que não a percebe. Otário de teimoso. Que insiste no vício de acreditar que, apesar de toda esperteza, vale à pena acreditar.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.

Ilustração: Mihai Cauli

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