
Sempre gostei de ir a uma banca de jornais e comprar diretamente. Tinha as bancas preferidas, como a de uma esquina da Praça da Alfândega, próxima ao velho Matheus. Comprava o “Correio da Manhã”, com craques como Otto Maria Carpeaux, Carlos Heitor Cony. Quando morei em Buenos Aires, parava nas bancas, tinha La Opinión, Clarin, La Nació, depois a grande revista Crisis, não faltava o que ler, e quando viajo se mantém o vício. Anos e anos fui freguês da banca em frente ao Hospital de Pronto Socorro de Porto Alegre, um espetáculo para os olhos e o coração. Há um ano ou mais, decidi assinar uma revista só sobre livros, que não se vende mais em bancas, “Quatro cinco um”, revista mensal com dezenas de artigos sobre os mais variados temas e no final uma seleção dos principais livros editados no Brasil.
O título da revista é em homenagem ao livro de Ray Bradbury “Fahrenheit 451”, a temperatura em que os livros eram queimados numa distopia futura. Tem um filme de François Truffaut com o mesmo título que também fez sucesso. Todos os meses recebo o presente que é essa revista, e no ano passado veio com uma capa surpreendente: uma foto de Anne Frank. E além da capa mais cinco páginas dedicada à moça que escreveu o diário mais famoso do mundo, “O diário de Anne Frank”. Li a revista reli, voltei a ler, em especial um ensaio da escritora Conceição Evaristo, que abre assim: “No diário da menina judia eu lia a minha solidão de menina negra e pobre e o histórico da identidade massacrada dos povos negros”. A ponte que Conceição Evaristo fez entre as meninas, ela negra e a menina judia Anne Frank me tocou como brasileiro judeu.
Tinha em casa o diário, mas decidi comprar uma edição com a tradução direta do holandês editada pela Record e com 350 páginas. Li devagar, o início não é uma leitura fácil, pois o leitor ingressa num pequeno anexo em que se refugiaram oito pessoas. Visitei a Casa de Anne Frank em fevereiro de 1968, liderando um grupo de estudantes. Meu envolvimento com o diário foi crescente, pesquisei sobre seus leitores e o pequeno espaço do anexo secreto em que foi escrito. Dois anos apertados nesse espaço que leva um leitor a se sentir inquieto ao acompanhar Anne Frank e os que viveram com ela. Gera uma sensação fóbica, mas, aos poucos, as emoções e reflexões de Anne tomam conta da gente de uma forma tal que eu não podia parar de ler. Interessante que há um ano, ou pouco mais, um grupo teatral me havia pedido um texto sobre “Por que devemos falar sobre Anne Frank”. Torço para que algum dia o espetáculo teatral possa ser concretizado.
Anne Frank é a vítima mais conhecida do nazismo, e essa atrocidade não pode ser pensada só como algo do passado, pois no presente também ocorre. A crueldade não ocorreu só naqueles tempos sombrios do nazismo, mas se pode ver também na Ucrânia hoje, ou aqui no País, com crimes contra negros e índios. Há poucos dias, foi assassinado com gás Genivaldo de Jesus Santos, um negro que dirigia uma moto sem capacete e por isso foi atacado, maltratado e, finalmente, morto. Matam um negro a cada quatro horas no Brasil, segundo os Observatórios de alguns estados que vêm estudando a violência racista aqui. Devemos escrever, devemos denunciar, devemos estudar o racismo no País, pois terrível é a indiferença. Genivaldo foi vítima de racismo e morreu asfixiado por gás como os seis milhões de judeus durante o nazismo. Está mais que na hora de crescer o movimento contra o racismo, está mais que na hora de melhorar a humanidade de cada um de nós.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone.
Sobre o tema, leia também O Diário de Anne Frank do mesmo autor.






