Há um mundo em que as meninas sonham em ser rainhas e os municípios estabelecem regras do século passado para escolherem a “soberana”

Na edição de sábado, 9 de maio, do jornal Zero Hora, há uma reportagem de três páginas com o título, “Soberanas – os bastidores das realezas do Interior”, que trata de inúmeros concursos para eleger rainhas e princesas em municípios, festas locais ou regionais. O professor da Universidade de Caxias do Sul, Rodrigo Luis dos Santos, entrevistado pelo jornal, atribui estas coroações à origem europeia da população do estado: “a origem está na Europa, de onde vieram imigrantes açorianos, italianos e alemães. É uma ligação com a monarquia.”
Tendo a discordar do colega, pois o Brasil tem uma miríade de rainhas. Todas as Escolas de Samba do Rio e São Paulo têm rainhas de bateira, há rainhas do Maracatu em Pernambuco, Rainha da Festa do Peão Boiadeiro de Barretos em São Paulo, Rainha da Fenamilho em Minas Gerais, só para dar alguns exemplos. A ideia de rainha parece estar muito mais ligada à magia, à fantasia presente nos contos infantis, onde a princesa adormecida é salva por um príncipe, do que à ancestralidade nobre e europeia dos imigrantes gaúchos. Atualmente, a ideia de ser rainha é mais ou menos um mini BBB, tanto para os promotores das festas, principalmente as mais interioranas, que permitem aos municípios alguns ganhos com turismo, mas, sobretudo, para as meninas que concorrem. Antes, o sonho era se tornar modelo internacional, hoje elas têm a ilusão de enriquecer como influencers.
Há uma grande diferença entre ser rainha de Escola de Samba do Rio de Janeiro ou ser rainha de uma pequena cidade do interior do Rio Grande do Sul. Se, aqui, a rainha precisa mais do título do que a cidade, no Rio a escola de samba precisa mais da presença de Sabrina Sato, por exemplo, do que ela da Escola. Nos dois casos, a mulher se torna objeto de desejo através da beleza física, muitas vezes conseguida com grandes sacrifícios econômicos em procedimentos dolorosos e perigosos, quando não fatais.
Tudo isto faz parte de um jogo que infelizmente ilude meninas, principalmente as mais pobres, e as tornam objetos de desejo do imaginário masculino. Mas o que mais me chamou a atenção na reportagem foi a pormenorização das condições exigidas em alguns dos concursos no interior do Rio Grande do Sul. Resolvi então compará-las com as exigências para candidatas ao Concurso de Miss Brasil na década de 1960, quando tal certame atingiu grande popularidade. Impressiona como as condições exigidas para as candidatas pararam no tempo.
Ainda conforme a ZH, “a maioria dos concursos exige que as soberanas sejam solteiras, ou seja, não podem ser casadas, ter união estável ou viver em concubinato”. Em 1960, “a candidata deveria ser obrigatoriamente solteira e nunca ter sido casada”. Ora, há 65 anos, isto queria dizer ser virgem, considerando a “estrutura familiar tradicional” também citada.
O concurso oferecia a mais bela virgem aos mais bem aquinhoados machos da ocasião. E agora, por que uma mulher casada, ou em qualquer outra situação civil, não pode concorrer? Esperam que seja virgem? O pior é que, na cabeça de quem promove estes certames, deve passar algo semelhante a isto.
Quanto à maternidade, a semelhança ainda é mais estranha. Em 1960, era taxativo: “não era permitido ter filhos”. Como sabemos, há só um caso, diga-se de passagem, nunca comprovado, de mãe virgem. Portanto, a proibição era óbvia. Nos concursos gaúchos, a maternidade varia de forma prosaica. Segundo a reportagem, é comum “que as soberanas não possam ter filhos”. O mais surpreendente é o caso da cidade de Barros Cassal: “a mulher pode ser mãe, mas a maternidade não pode ser um empecilho para participar das obrigações.” A pretendente à rainha deve se comprometer que seu filho ou filha nunca adoecerá?
Nunca passaria pela cabeça dos promotores de tais certames oferecer condições para que as rainhas e princesas pudessem exercer suas funções com suporte para seus filhos.
Segue ainda uma proibição comum às duas épocas que até parece anedótica. Em 1960, “a candidata não poderia ter sido fotografada ou filmada despida”. Na cidade gaúcha de Colinas, atualmente, a futura soberana e princesas necessitam “não terem sido fotografadas nuas”. Como diria Nelson Rodrigues, “toda nudez será castigada”.
Nos anos 1960, a miss deveria ter desenvoltura ao falar e conhecer idiomas era um diferencial. O belo livro, O Pequeno Príncipe, de Saint-Exupéry ficou definitivamente marcado como baixa literatura porque todas as misses, ao responderem sobre o livro de que mais gostavam, referiam-se a ele, automaticamente, acrescentando ainda a indelével citação: “tu te tornas eternamente responsável por aquilo que cativas”. A propósito, esta é uma das piores passagens do livro e não faz sentido moral, ético ou psicanalítico.
Nos concursos gaúchos atuais, há jurados que fazem perguntas de ordem cultural, provas escritas e orais, mas é surpreendente o que acontece na cidade de Santo Expedito do Sul: “as candidatas enfrentam uma avaliação psicológica”. Caso algum psicólogo ou psicóloga do município estiver lendo este texto, faço um apelo: me informem em que consiste esta avaliação? Fiquei com uma imensa curiosidade.
Muitos anos se passaram desde o início da chamada segunda onda do feminismo, muitas outras ondas vieram. As lutas das mulheres têm sido constantes, árduas, duras, abrangendo mulheres negras, indígenas, brancas, mulheres hétero, lésbicas, trans, mulheres do campo e da cidade, mulheres trabalhadoras. Atualmente, todas sofrem uma verdadeira epidemia de violência, todas encontram enormes dificuldades em participar da vida política como candidatas, não conseguem ter seus nomes incluídos em listas para os cargos de poder e também lutam para manterem seus empregos, por mais simples que sejam, quando são mães, sem terem onde deixar os filhos que criam praticamente sós.
Mas há um mundo em que as meninas sonham em ser rainhas e os municípios estabelecem regras do século passado para escolherem a “soberana” que almeja se tornar rainha ou influencer. Quanta ilusão é incutida na cabeça destas jovens, quanto machismo, a que educação de baixo nível estão submetidas! A quanto perigo de violência estão expostas! Nós, velhas feministas, ainda que já tenhamos lutado muito, ainda precisamos fazer mais para convencer algumas jovens de que podem ter um vida interessante, que vale a pena lutar, mas a vida não é um conto de fadas, com rainhas e princesas adormecidas à espera de seus príncipes encantados. (Publicado por Sul 21)
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Revisão: Celia Bartone.
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