
Quando me mudei para a Espanha, em fevereiro de 2018, o líder de uma muito incipiente, mas já desavergonhada ultradireita espanhola, Santiago Abascal, era apenas um político raivoso que trajava casacos de couro para ressaltar a postura marcial do próprio corpo e quem sabe reviver os gloriosos tempos da subcultura nazifascista – como escrevi num dos primeiros artigos para o Terapia Política, chamando a atenção para o renascimento da ultradireita no país do generalíssimo Francisco Franco. A Espanha, da mesma forma que Portugal, Itália e Alemanha, estava entre os últimos bastiões europeus onde, não por acaso, os herdeiros de Mussolini e companhia ainda demonstravam certa inibição para se apresentarem ao público.
Na sequência, outros artigos se seguiram destacando o rápido crescimento eleitoral do VOX (o partido liderado por Abascal) e da energia que o alimentava, assim como os outros partidos da mesma família – como o de Mateo Salvini na Itália. Na época, a atual primeira-ministra Giorgia Meloni era apenas uma deputada do pequeno Fratelli d´Itália que nas eleições daquele ano angariou o apoio de menos de 5% do eleitorado. Quatro anos depois, esse percentual subiu para 26% e em outubro de 2022 ela se tornou a primeira-ministra.
Enquanto isso, do outro lado do Atlântico, Donald Trump, muito a contragosto, era obrigado a desocupar a Casa Branca e ceder a moradia ao adversário democrata Joe Biden. No pleito seguinte (2024), derrotou fragorosamente a candidata indicada por Biden, Kamala Harris, para logo começar a atuar como imperador do mundo livre.
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Há um interesse crescente na caracterização do fenômeno – uma disputa franca acerca do nome com o qual deveria ser batizado, se é ou não correto tratá-lo como fascismo. Mas isso, na realidade, talvez seja de menor importância, exceto, é claro, para os historiadores deste e do século passado. Muito mais relevante, me parece, é identificar aquilo que o alimenta – e desde sempre o alimentou. Porque, assim também me parece, embora as diferentes formações dessa onda que avança sobre o Ocidente não sejam exatamente iguais entre si e muito menos idênticas às dos seus progenitores longínquos, elas têm, sim, um combustível (ou combustíveis) muitíssimo assemelhado.
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Cabe, portanto, perguntar que energia é essa que empurra adiante e faz crescer tanto o VOX da Espanha quanto os apoiadores de Milei na Argentina, os fanáticos seguidores de André Ventura em Portugal ou os do bolsonarismo no Brasil, o Reform UK de Nikel Farage na Inglaterra e o trumpismo nos Estados Unidos, ou o Ressemblement National (Reagrupamento Nacional) de Marine Le Pen na França e o Fratelli d’Itália (Irmãos da Itália) de Giorgia Meloni. O mais novo integrante do refinado clube dos chamados outsiders é o candidato à presidência da Colômbia Abelardo de la Espriella.
É inquestionável que uma imensa sombra vem se esparramando e tomando conta do mundo ocidental, ao Norte e ao Sul do Equador. El Tigre, como gosta de ser chamado o comandante do Defensores de la Patria De la Espriella, saiu do primeiro turno com três pontos percentuais à frente do candidato Iván Cepeda (apoiado pelo atual presidente Gustava Petro) e é franco favorito para vencer o segundo turno.
Desde que, em 1972, o francês Jean-Marie Le Pen fundou a sua Frente Nacional, a escalada nunca mais se interrompeu. Dois anos após a fundação, sua agremiação obteve apenas 0,74% dos votos dos franceses. Pouco menos de uma década depois, parecida destinada ao desaparecimento, sequer conseguindo as assinaturas exigidas para concorrer. Mas, em 1988, a primeira surpresa: o Front National obteve nada menos que 14% dos votos franceses. Em 1995, foram 15%. Na disputa de 2002, no entanto, com 16,9% dos escrutínios avançou para a segundo turno. Assustados com o desempenho do ultradireitista, todos os partidos da direita tradicional, do centro e da esquerda se uniram em torno da candidatura de Jacques Chirac, o mais votado no primeiro turno. Chirac acabou vitorioso com 82,2% dos votos e Jean-Marie teve que se contentar com um crescimento de míseros 0,9% a mais que a percentagem obtida no primeiro turno.
Mas a derrota não podia ser considerada completa, muito ao contrário: a ultradireita europeia havia definitivamente abandonado a clausura a que fora lançada ao fim da II Guerra e a tremenda energia que desde a transição do século XIX para o XX, até então sedada pela força da catástrofe a que arrastara o planeta, vinha de novo à tona. De lá para cá, é como se caminhássemos para trás, de volta ao início do século XX. Após seu renascimento na Europa, esse exército de patriotas sem pátria (todos eles adoradores implacáveis das bandeiras, flâmulas e hinos dos seus países, dos quais se julgam como únicos donos) avança a todo vapor para ultramar, na direção do Novo Mundo.
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Há sempre um ato de ilusionismo, uma palavra mágica por detrás dos chamados outsiders, a começar pela própria qualificação à qual tratam de se acoplar. O que pode ser mais trapaceiro que se autodenominarem outsiders os mais ferrenhos defensores do establishment? Donald Trump, Javier Milei, os Bolsonaros – em qual planeta ou realidade paralela poderiam ser considerados adversários ou alheios aos partidos políticos tradicionais, inimigos do grande empresariado, dos donos de bancos e do sistema financeiro?
Não por acaso, é no ambiente das realidades paralelas que a ultradireita do século XXI melhor se reproduz: no espaço da publicidade escancaradamente enganosa, dos slogans encantatórios, da ignorância fabricada ou voluntária e reproduzida em escala industrial. Os truques são sempre os mesmos – muda apenas a embalagem. Na Argentina, uma Motoserra vai colocar nos eixos todo o aparato do Estado e a própria economia. No Brasil, a apregoada intimidade com o Imperador conduzirá o país e os brasileiros de boa vontade ao paraíso do consumo na Quinta Avenida ou às praias e mansões de Miami. Na Colômbia, um milionário advogado de paramilitares, futebolistas ricos e gente famosa, dono de mansões (ou segundas residências no jargão dos muito ricos) na Flórida e na Toscana promete transformar o país numa bem sucedida empresa, onde até as mega prisões copiadas de Nabili Bukele de El Salvador (outro destacado membro do clube) serão administradas com técnicas provadas no mundo dos negócios.
Replicando uns aos outros, os novos refrões e slogans publicitários lançados, eleição após eleição, são logo acrescidos aos já existentes. Assim que, enquanto anuncia sua adesão à motosserra de Milei e aos megacárceres de Bukele, El Tigre faz propaganda do tamanho do próprio pênis (sic! – num recente programa de TV pediu a uma das apresentadoras que fizesse um zoom de sua zona genital numa foto de campanha) e expele impropérios grosseiramente misóginos e homofóbicos. É esse o calibre dos replicantes da ultradireita nas terras de ultramar.
Mesmo assim, prosperam, se elegem presidentes ou lideram as disputas para se tornarem presidentes. Mesmo assim, e apesar das trapalhadas em que por vontade própria e pelo que lhe ditam suas naturezas, como tentar rocambolescos golpes de Estado ou se meterem em patéticas produções cinematográficas financiadas por banqueiros corruptos e encarcerados, se mantêm no páreo, atraindo a simpatia e o ardor fervoroso de milhões de fiéis eleitores.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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