Vamos admitir, por ora, que a guerra contra o Irã realmente terminou — que o “memorando de entendimento” será respeitado, que Israel cessará seus ataques ao Líbano e que o Irã abrirá mão do controle militar sobre o Estreito de Ormuz. Talvez essa seja uma aposta arriscada. Mas, se a guerra acabou, que tipo de guerra foi essa?

O conflito começou como um exercício relativamente familiar do poder aéreo americano e israelense: uma campanha mais ampla e dirigida contra um adversário muito mais poderoso, mas não muito diferente dos ataques remotos que se tornaram desconfortavelmente frequentes na história militar recente dos Estados Unidos. Entre a segunda posse do presidente Trump e o início da Operação Epic Fury, no fim de fevereiro, os Estados Unidos realizaram ataques militares contra sete países, incluindo os bombardeios da chamada “Guerra dos Doze Dias” contra o Irã, em junho de 2025, mas excluindo dezenas de ataques ilegais e, em sua maioria, jamais explicados contra embarcações no Caribe, que mataram mais de 200 pessoas.

Entre o 11 de setembro de 2001 e o início da guerra contra o Irã, os Estados Unidos promoveram campanhas de bombardeio contra dez países e participaram de pelo menos vinte operações que o Brennan Center for Justice classifica como “guerras secretas”. Quando os americanos se lembram dessas ações, normalmente as veem como operações rápidas, breves demonstrações da hegemonia militar dos Estados Unidos. Na Líbia, por exemplo, a força aérea americana realizou mais de cinco mil missões em 2011, incluindo mais de mil voos de bombardeio. Em 2015, iniciou-se uma nova campanha aérea no país, desta vez contra o ISIL, que durou quatro anos. O Iêmen, por sua vez, é bombardeado pelos Estados Unidos praticamente todos os anos há quase duas décadas.

A maior parte dessas campanhas produziu resultados ambíguos, capazes de levar qualquer força militar mais reflexiva a uma profunda revisão de suas estratégias. O conflito com o Irã, porém, terminou com um veredicto muito mais contundente: representou uma derrota efetiva e um revés estratégico para os Estados Unidos, encerrando-se, ao menos por enquanto, em um acordo repleto de concessões que o presidente jamais teria aceitado antes do início da guerra e que até mesmo os mais fervorosos defensores de uma linha dura contra o Irã denunciam como uma capitulação constrangedora.

Nesse intervalo, assistimos ao surgimento do que pareceu ser um tipo inteiramente novo de guerra. Uma de suas principais novidades foi o papel central dos drones de baixo custo, que alteraram profundamente as vantagens militares tradicionais das grandes potências.

Outra novidade foi a rapidez com que a guerra convencional deu lugar a um conflito híbrido, dominado pela pressão econômica e interrompido apenas ocasionalmente por ataques militares. Até pouco tempo atrás, sanções econômicas e guerras comerciais eram instrumentos utilizados nas fases iniciais da escalada de tensões, antes do emprego das forças armadas, geralmente com o objetivo de evitar um confronto direto. No caso do Irã, a lógica foi invertida: a escalada saiu do campo militar e migrou para uma disputa econômica que se assemelhou a uma gigantesca tomada de reféns.

Esta guerra também deixou outras seis lições importantes.

A primeira delas é que os mercados internacionais de petróleo e gás mostraram-se muito mais resilientes do que os analistas previam. Há apenas um mês, o diretor da Agência Internacional de Energia, Fatih Birol, classificava o conflito como “a maior crise energética da história”.

Entretanto, observando o comportamento do mercado de petróleo, dificilmente seria possível perceber tamanho alarme. Os preços subiram, mas em intensidade semelhante à observada logo após a invasão da Ucrânia pela Rússia. Durante semanas, analistas alertaram para um enorme descompasso entre os preços dos contratos futuros de petróleo e a escassez efetiva provocada pelo fechamento do Estreito de Ormuz. Garantiam que, mais cedo ou mais tarde, haveria um ajuste brusco: os preços disparariam e a economia mundial mergulharia no caos.

De fato, a guerra provocou perturbações nos mercados de petróleo e gás, e a turbulência ainda não terminou. Em vários países asiáticos, os impactos foram severos: escassez de combustíveis, redução do ritmo de produção industrial e diminuição das jornadas de trabalho.

No fim das contas, porém, essa não foi uma repetição da crise do petróleo dos anos 1970 — nem algo de proporções maiores. Em grande medida, ocorreu o que analistas chamam de destruição da demanda (demand destruction): a redução voluntária do consumo motivada pelo receio de aumentos de preços ou de problemas no abastecimento.

Esse movimento foi particularmente expressivo na China, que reduziu em aproximadamente metade suas importações marítimas de petróleo, contribuindo para estabilizar o mercado mundial. Ao mesmo tempo, demonstrou aquilo que o colunista da Bloomberg Javier Blas descreveu como um poder equivalente a uma arma atingindo o mercado internacional de petróleo. O episódio também revelou a extraordinária capacidade de adaptação do sistema energético global. As reservas estratégicas cumpriram exatamente o papel para o qual foram criadas, enquanto os enormes investimentos recentes em fontes renováveis ofereceram uma proteção adicional contra eventuais faltas de combustíveis fósseis.

Por fim, o conflito mostrou que aqueles operadores de mercado frequentemente considerados ingênuos — que apostavam na normalização da situação e na capacidade dos mercados de absorver turbulências de curto prazo — talvez estivessem certos desde o início.

A transição verde acelerou

Assim como ocorreu quando a Rússia invadiu a Ucrânia em 2022, as primeiras previsões apontavam para um retorno ao carvão em nome da segurança energética. Mais uma vez, porém, os prognósticos mostraram-se excessivamente pessimistas. A recuperação dos combustíveis fósseis foi pequena ou praticamente inexistente, enquanto os movimentos mais expressivos no setor de energia vieram do crescimento das exportações chinesas de painéis solares e veículos elétricos.

Qualquer observador atento pôde perceber os novos riscos da dependência dos combustíveis fósseis: a necessidade permanente de importações, a dependência de fornecedores externos e o fato de que a instabilidade da geopolítica contemporânea produziu três grandes choques energéticos em apenas seis anos. (Se ampliarmos a perspectiva histórica, este pode ter sido o décimo quarto choque do petróleo em seis décadas.)

Em cerca de 60 países, foram adotadas rapidamente aproximadamente 200 medidas emergenciais de economia de energia, após alguns anos em que praticamente não surgiram novas políticas climáticas relevantes em escala global.

O que inicialmente parecia uma guerra entre petroestados acabou se transformando em um poderoso estímulo à expansão das fontes alternativas de energia em todo o mundo. Antes da guerra, a expressão segurança energética costumava significar a necessidade de garantir o acesso aos combustíveis fósseis. Depois dela, passou a refletir uma percepção crescente de que as fontes renováveis podem representar uma forma muito mais segura e confiável de abastecimento energético.

Os Estados Unidos não sabem mais como vencer uma guerra moderna

Não foi apenas o secretário de Defesa, Pete Hegseth, no Pentágono, que acreditava que esse conflito seria um verdadeiro cakewalk — uma vitória fácil e rápida. Mesmo aqueles que alertavam para os riscos de uma guerra por escolha própria no Oriente Médio concentravam suas preocupações, no início do conflito, na possibilidade de um colapso político interno no Irã. Pouquíssimos imaginavam que as forças armadas americanas seriam levadas a um impasse militar.

Foi exatamente isso que aconteceu. Os Estados Unidos causaram danos significativos às Forças Armadas iranianas, ao programa nuclear do país e à infraestrutura civil. Ao mesmo tempo, porém, sofreram perdas consideradas inaceitáveis por seus próprios comandantes, a ponto de retirar tropas de bases na região por temor de ataques com drones e mísseis.

O fato de uma nova geração de drones baratos ter sido capaz de intimidar a mais poderosa força militar do planeta e, ao mesmo tempo, interromper o tráfego em uma das rotas comerciais mais estratégicas do mundo demonstrou que as superpotências já não desfrutam de uma vantagem militar incontestável. Trata-se, aliás, de uma ironia diante dos reiterados discursos de Hegseth sobre a necessidade de liberar o suposto potencial natural dos Estados Unidos para a guerra.

Talvez Washington finalmente aprenda essa lição e invista em uma nova base industrial voltada para as exigências da guerra contemporânea. Mas não aprendeu a tempo de vencer este conflito.

Os Estados Unidos continuam capazes de cometer evidentes crimes de guerra — e agir como se nada tivesse acontecido.

O ataque, no primeiro dia do conflito, à escola primária Shajarah Tayyebeh, na cidade iraniana de Minab, permanece, provavelmente, como o episódio mais marcante de toda a guerra. Mais de 175 pessoas morreram em um aparente ataque do tipo double tap, no qual um segundo míssil foi lançado justamente quando familiares e equipes de resgate haviam chegado para socorrer as crianças mortas e feridas.

O Pentágono reconheceu parcialmente sua responsabilidade, mas até hoje não houve qualquer investigação pública consistente que esclarecesse como esse ataque ocorreu ou quem tomou a decisão que o tornou possível — inclusive a possibilidade de que algum sistema de seleção de alvos baseado em inteligência artificial tenha participado do processo.

Suspeito que o bombardeio não tenha sido resultado de um sistema totalmente autônomo. Ainda assim, preocupa-me que esse episódio represente uma antecipação da forma como as guerras serão conduzidas na era da inteligência artificial: menos preocupação em identificar responsabilidades individuais e maior disposição para aceitar elevados níveis de danos colaterais como consequência inevitável da chamada “névoa da guerra” — uma névoa que, segundo essa lógica, teria se tornado ainda mais espessa com a intervenção das máquinas inteligentes.

Ainda não vivemos em um mundo pós-americano, mas a influência dos Estados Unidos está claramente em declínio.

Assim que a aventura militar americana entrou em um impasse, com o Irã atacando bases militares na região e comemorando seus êxitos por meio de vídeos no estilo “Lego” publicados no TikTok, multiplicaram-se as declarações de que aquela guerra representava o fim do poder americano.

Essa interpretação sempre foi exagerada. Nenhum outro país seria capaz de iniciar uma guerra desse tipo enfrentando uma reação internacional tão limitada. Isso demonstra não apenas que os Estados Unidos continuam sendo uma potência hegemônica intimidadora, mas também que permanecem, em muitos aspectos, os principais árbitros da ordem internacional liberal — embora tenham contribuído significativamente para enfraquecê-la nos últimos anos.

Nenhum outro país conseguiria manter seus aliados minimamente alinhados diante de um ataque tão pouco provocado, sobretudo quando esse ataque acabou afetando toda a economia mundial. Tampouco haveria outro governo capaz de convencer o restante do mundo a administrar suas reservas estratégicas de combustíveis para amortecer os impactos econômicos de uma guerra iniciada pelos próprios Estados Unidos.

Ainda assim, como reconhece até mesmo um dos mais conhecidos defensores de uma linha dura contra o Irã, John Podhoretz, o conflito representou uma clara humilhação para Washington. Parte disso decorreu de um erro estratégico: acreditar que ataques cirúrgicos poderiam alcançar objetivos tão ambiciosos quanto uma mudança de regime. Outra parte revela uma realidade mais ampla: o poder diplomático e militar americano parecia muito mais intimidante em janeiro do que parece hoje.

E, embora praticamente todos os países estejam aliviados com o aparente fim do conflito, dificilmente alguém fora de Washington classificará o acordo final como uma vitória dos Estados Unidos.

As consequências para a proliferação nuclear são extremamente ambíguas — e bastante preocupantes

No início da guerra, a principal lição para as potências médias parecia evidente: embora o desenvolvimento de armas nucleares continuasse sendo visto como uma ameaça pelas grandes potências, possuir um arsenal nuclear plenamente desenvolvido funcionaria como uma espécie de garantia de paz e até mesmo de respeito internacional.

Nos primeiros dias do conflito, a França anunciou que modernizaria e ampliaria significativamente seu arsenal nuclear. A Polônia sugeriu que poderia iniciar seu próprio programa. Já a Coreia do Norte parece ter transformado seu arsenal atômico em importante instrumento de poder e barganha internacional.

À medida que o conflito se prolongou e a guerra econômica passou a ocupar o centro do cenário, as implicações nucleares também mudaram. Em abril, o ex-presidente da Rússia Dmitri Medvedev, atualmente vice-presidente do Conselho de Segurança do país, declarou:

“O Irã testou sua arma nuclear. Ela se chama Estreito de Ormuz. Seu potencial é inesgotável.”

A comparação era claramente hiperbólica, mas também bastante reveladora. Em vez de uma arma de destruição em massa cujo poder reside principalmente na capacidade de dissuasão, o Irã demonstrou possuir um instrumento relativamente barato, efetivamente utilizável e surpreendentemente eficaz até mesmo contra uma grande potência militar.

Nem todos os países desfrutam de uma posição geográfica tão estratégica quanto o Irã para explorar as novas regras da guerra. Além disso, o fechamento do Estreito de Ormuz acabou não paralisando a economia mundial, como muitos previam — ou como provavelmente esperava o governo iraniano. Ainda assim, no balanço final, a estratégia permitiu ao Irã sair fortalecido.

A guerra talvez tenha ensinado ao restante do mundo que um elevado grau de autonomia estratégica pode ser alcançado não apenas por meio de ogivas nucleares, mas também com abundância de drones baratos. E quem sabe até seja possível obrigar os Estados Unidos a pagar uma conta relativamente generosa em reparações de guerra. (Publicado por The New York Times – Opinion Newsletter)

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Ilustração: Mihai Cauli

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