Há quase 40 anos ouço e leio, nas mídias tradicionais, em círculos de gestão pública e nos circuitos acadêmicos, que o Estado de Bem-Estar Social, os programas universais e as políticas industriais seriam ideias e categorias datadas, vinculadas às primeiras décadas do século XX e, por isso, superadas. Deveriam, segundo esse argumento, ceder lugar a novos conceitos e a outras concepções de sociedade e desenvolvimento. Ao longo dessas mesmas quatro décadas de vida profissional e acadêmica, tenho testemunhado, simultaneamente, a reiterada exaltação das virtudes da ampla concorrência entre os agentes econômicos, da eficiência alocativa dos mercados, da necessidade de desregulamentação e mínima intervenção estatal na economia. Curiosamente, essas proposições são ainda mais antigas: seus fundamentos remontam ao final do século XVIII e ao início do século XIX. E, no entanto, raramente são qualificadas como ultrapassadas, anacrônicas ou insuficientes para compreender a complexidade das sociedades contemporâneas. Mas são abundantes as evidências históricas ao contrário.

Como apontam Bruno e Caffe (2017), entre outros, são muitas as limitações da economia neoclássica e do pensamento liberal para explicar a dinâmica econômica atual e, sobretudo, para orientar respostas adequadas às crises, às desigualdades e aos desafios do desenvolvimento. Falta aos neoclássicos e liberais a capacidade de autocrítica ou integridade científica,  em alguns casos, na avaliação dos resultados concretos – e falhas-  das políticas inspiradas por seus pressupostos. Afinal, o que explicaria, por exemplo, os avanços registrados no Brasil, nas últimas duas décadas, no enfrentamento da pobreza, da desigualdade social, da mortalidade infantil e do desmatamento? Teriam sido as reformas trabalhistas de orientação conservadora, a privatização do saneamento e de outros serviços públicos e a desregulamentação ambiental? Ou esses avanços decorreriam, sobretudo, da ampliação de políticas sociais redistributivas, da estruturação territorial do Sistema Único de Saúde e da incorporação — ainda que marcada por ambiguidades e descontinuidades — da agenda ambiental pelas três esferas de governo? (Jannuzzi, 2024)[1]

Da mesma forma, o que explicaria o desencanto das classes médias e populares com a democracia liberal e o ressurgimento eleitoral da extrema direita nos países desenvolvidos? Seriam a insuficiente desregulamentação financeira, a regressividade ainda limitada das reformas tributárias e a incompleta liberalização do mercado de capitais e do trabalho? Ou, ao contrário, será que tal desencanto e adesão a valores autoritários não seriam consequências dessas apostas liberalizantes, que não têm interrompido o aumento da desigualdade de renda e riqueza desde os anos 1970, que têm bloqueado as possibilidades de mobilidade socio-ocupacional para gerações nascidas desde então, pela precarização das relações de trabalho e crescentes restrições de acesso aos serviços e à proteção oferecidos pelo Estado de Bem-Estar Social? De fato, como evidencia Tavares (2025), com dados comparativos internacionais, a estabilidade e robustez de uma Democracia Liberal dependem da vitalidade de seu Sistema de Proteção Social: mais democrático o país e mais reconhecido o direito ao voto em eleições livres, maior a carga fiscal para financiamento dos direitos sociais[2].

É mesmo intrigante o fato de que conceitos e valores inspirados em tradições conservadoras desfrutem de difusão, inteligibilidade e aceitação social muito mais amplas do que aqueles ,assentados em princípios progressistas — inclusive entre pessoas que pouco ou nada se beneficiam de suas consequências. O primado da austeridade como princípio da gestão pública constitui um exemplo eloquente. Sua defesa encontra ampla adesão em diferentes segmentos sociais, ricos ou pobres, mesmo quando sua aplicação implica redução da oferta, restrição do acesso ou precarização da qualidade dos serviços públicos dos quais depende a maior parte da população (Nunes, 2026)[3].

Talvez essa contradição decorra, em parte, da maior proximidade das ideias conservadoras com certas percepções do senso comum: mercado, concorrência e eficiência são conceitos de apreensão aparentemente mais imediata e, por isso, mais facilmente mobilizados no debate público. Já igualdade e liberdade exigem uma reflexão mais ampla sobre direitos, justiça social, solidariedade e projeto civilizatório.  O convencionalismo, isto é, a crença nos valores tradicionais, da família e religião acima da ciência e dos princípios republicanos na condução da vida ajuda a entender a aceitação das explicações mais conservadoras, convencionais e mais simplórias acerca da dinâmica social e econômica no país e no mundo. No Brasil, cerca de 96% da população adulta acredita que “Deus está no comando”, cifra que só tende a aumentar com o crescimento acelerado das vertentes neopentecostais (Nunes, 2025). Daí decorre que o sentimento de que “no passado a vida era melhor” seja partilhado por amplos segmentos da sociedade e que, portanto, as ideias e valores do passado deveriam ser “conservadas”. Afinal, o passado chega até nós filtrado, organizado e parcialmente reconciliado. O presente, ao contrário, é vivido em sua desordem, com problemas ainda abertos e muitas indefinições.

De fato, é preciso reconhecer que o presente e o futuro próximo se mostram muito incertos, com desafios particularmente complexos, alguns deles de natureza existencial: a crise climática, a revolução da inteligência artificial, as transformações demográficas, a erosão da confiança nas instituições democráticas e o aprofundamento das desigualdades[4]. Se não quisermos nos render à contemplação passiva, rósea e seletiva do passado e se, ao contrário, pretendermos contribuir ativamente para o enfrentamento desses desafios, precisaremos promover uma profunda revisão dos conceitos, modelos e instrumentos formulados em contextos históricos muito distintos. Essa tarefa se coloca especialmente no campo que nos mobiliza, direta ou indiretamente, como pesquisadores, gestores, militantes ou cidadãos: o das políticas públicas.

Mais concretamente, é necessário ir além de uma revisão pontual de conceitos e modelos interpretativos no campo, e construir uma nova gramática das políticas públicas: um conjunto renovado, coerente e articulado de pressupostos epistemológicos, valores públicos, categorias analíticas e referenciais metodológicos capaz de apreender a complexidade contemporânea e de orientar, com maior consistência, a análise, a formulação, a implementação, o monitoramento e a avaliação dos programas públicos,  neste contexto marcado por desafios civilizatórios e existenciais. É necessária uma virada cognitiva no campo, na direção de uma perspectiva que permita “conjugar” e “interpretar” políticas e programas segundo uma norma renovada e transdisciplinar de produção e organização discursiva, que se valha, inclusive, do potencial que a Inteligência Artificial generativa pode oferecer pelo acesso a material bibliográfico, documental e literatura cinzenta do mundo todo.

É isso que temos procurado fazer, de maneira modesta, mas comprometida, no âmbito do projeto Inteligência Artificial e Políticas Públicas, desenvolvido desde 2023 por pesquisadores e técnicos do Centro Interinstitucional de Inteligência Artificial Aplicada às Políticas Públicas (CIAP), iniciativa conjunta da ENCE/IBGE, do NEPP/Unicamp e do Cepasp/UFG[5]. No portal do CIAP (ciap.org.br), está disponível um acervo com mais de 24 mil estudos sobre políticas públicas, produzidos por pesquisadores brasileiros ao longo das últimas três décadas. Esse material pode ser acessado por meio do CORA, ferramenta de busca e consulta de artigos, e do ChatPP, assistente interativo de Inteligência Artificial Generativa. O portal também oferece outras ferramentas computacionais e conteúdos como os levantamentos primários sobre experiências subnacionais e boas práticas em programas e projetos sociais. Na dimensão formativa, com apoio da Fundação de Amparo à Pesquisa de Goiás e do Ministério de Gestão e Inovação, estruturou-se uma oferta significativa de cursos autoinstrucionais além de oficinas presenciais e remotas, realizadas em diferentes regiões do país. Nessas atividades  são apresentados alguns componentes dessa nova gramática, como o emprego de modelos heurísticos na análise de programas públicos, apoiado por assistentes de Inteligência Artificial Generativa.

Integra igualmente esse esforço de renovação conceitual e epistemológica um conjunto de reflexões organizadas na forma de disjuntivas sobre a gestão e a implementação de políticas públicas no Brasil contemporâneo, que interessa aqui comentar (Quadro 1). Essas reflexões emergiram de debates em cursos, oficinas e reuniões de equipe do projeto e parte delas foram apresentadas em artigos publicados nos portais Terapia Política, Nexo Políticas Públicas, e recentemente sistematizadas no livro Políticas Públicas em Ação (Jannuzzi 2026). As disjuntivas procuram expor o confronto de “verdades propugnadas pela boa ciência e comprovadas pelas evidências técnicas neutras e incontestáveis” e formulações não convencionais, heterodoxas, reputadas como “ideológicas” por se situarem fora dos limites estabelecidos pelo senso comum ou pelo mainstream neoclássico e liberal. Em um mundo em que políticas públicas correm o risco de serem capturadas pelo Tecnocratismo Algorítmico é cada vez mais importante provocar a reflexão em torno de supostos consensos técnicos e políticos vigentes.

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Notas e referências:

Ilustração: Mihai Cauli