A separação entre economia e política é uma ilusão do pensamento liberal conservador. Hirschman (1945) demonstrou que o comércio, mesmo quando voluntário e mutuamente vantajoso, gera assimetrias e, consequentemente, poder e dependência.[1] O uso de instrumentos econômicos e financeiros para atingir fins geopolíticos sempre foi usado pelos países hegemônicos.

Grandes potências (hegemons) como Estados Unidos e China exercem coerção ao controlar não apenas um recurso isolado, mas feixes de incentivos e dependências (crédito, infraestrutura, tecnologia e pagamentos). A Nova Rota da Seda chinesa é um exemplo clássico dessa estratégia.

A capacidade de coerção não cresce de forma proporcional à participação de mercado. A diferença entre dominar 95% e 85% de um insumo crítico é drástica: ao existir uma alternativa real de 10% a 15%, a capacidade de coerção do hegemon evapora rapidamente.

Especialização e ganhos de escala geram eficiência econômica, mas criam vulnerabilidades estratégicas. A busca individual por autonomia conduz ao desacoplamento e à fragmentação da rede global, o que reduz o bem-estar de todos os atores.

Para evitar que os países abandonem sua rede, o hegemon aceita limitar seu uso discricionário de coerção submetendo-se a regras internacionais (como FMI, Banco Mundial e OMC). Quando esses compromissos se rompem, o movimento de fragmentação do sistema acelera.

Para economias como a do Brasil, a diretriz não é o isolamento autárquico, mas a diversificação seletiva. Mapear e construir alternativas mínimas (sair de 1% para 10%) em gargalos estratégicos – como semicondutores, sistemas de pagamentos, fertilizantes, farmoquímicos e software – é a chave para neutralizar chantagens geopolíticas mantendo os ganhos do comércio global.

A premissa liberal de que os mercados operam de maneira autônoma e desprovida de intenções políticas sempre constituiu uma abstração teórica desvinculada da prática histórica. A economia política internacional ensina que as transações comerciais, os fluxos financeiros e a inovação tecnológica jamais existiram em um vácuo geopolítico. A tentativa de tratar a teoria econômica puramente como uma ciência da alocação eficiente de recursos escassos encobriu, por décadas, a forma como as relações econômicas internacionais moldam e são moldadas pelo poder estatal.

A economia política internacional já havia desmontado a tese ingênua de que trocas voluntárias e mutuamente benéficas seriam geopoliticamente neutras. Hirschman (1945) demonstrou que o comércio internacional produz assimetrias estruturais, e é precisamente no diferencial de dependência entre as nações que reside a essência do poder de coerção estatal.

A trajetória conceitual do Índice Herfindahl-Hirschman ilustra bem essa miopia metodológica: amplamente utilizado nas escolas tradicionais de economia para mensurar a concentração de mercado entre firmas, o indicador foi concebido originalmente por Hirschman para medir a capacidade de subordinação econômica que uma nação exerce sobre outra através da concentração do comércio exterior.

A manifestação da coerção de guerra híbrida apoia-se no controle de gargalos estratégicos. Um país A constrói alavancagem sobre um país B quando fornece bens, serviços ou infraestruturas essenciais cuja substituição no curto ou médio prazo seja inviável ou proibitivamente dispendiosa. Contudo, a capacidade de influência de uma potência hegemônica não decorre da retenção de um único recurso isolado, mas da capacidade de empacotar múltiplos canais de dependência.

O hegemon no capitalismo atual financeirizado combina controle sobre manufatura avançada, capital financeiro, tecnologias proprietárias e arquiteturas globais de pagamento. Quando um Estado controla a totalidade desse sistema, a ameaça de interrupção de acesso passa a ter um poder dissuasório devastador. A iniciativa chinesa da Nova Rota da Seda (Belt and Road Initiative) exemplifica essa dinâmica: ao articular financiamento estatal, execução de infraestrutura física e fornecimento de bens industriais, Pequim estabelece uma teia de compromissos vinculantes. O eventual descumprimento das condições pactuadas por uma nação receptora acarreta o risco de colapso simultâneo em múltiplos setores vitais da sua economia.

Adicionada ao poder dos hegemons está a capacidade de influenciar países fora de sua rede, remodelando o equilíbrio mundial para consolidar ainda mais poder. Por exemplo, quando os Estados Unidos pressionaram governos e empresas europeias para que parassem de usar a tecnologia 5G da Huawei, os chamados efeitos de rede amplificaram o impacto. Como o valor de uma rede de telecomunicações aumenta quanto mais amplamente ela é adotada, fazer com que alguns países rejeitassem a Huawei tornou a tecnologia menos atraente para outros, incluindo países que os EUA não podiam pressionar diretamente.

Dessa forma, a conversão de dependência econômica em concessão política ocorre porque o custo de aceitar a exigência do hegemon é inferior ao custo de sofrer a retaliação e a desconexão do sistema. A dependência econômica e política  transforma o comércio e as redes financeiras em armas de projeção de poder, nas quais as moedas de troca deixam de ser apenas tarifas e preços, passando a incluir alinhamentos de lealdade  (voto) em organismos internacionais, cessão de direitos territoriais ou exclusão de fornecedores concorrentes.

O conceito de não linearidade da capacidade de coerção é sumamente importante. Ao contrário do que prega a análise macroeconômica convencional, a relação entre a participação de mercado de uma potência em um setor crítico e a sua capacidade efetiva de impor sua vontade a outros Estados não segue uma progressão linear.

A diferença prática entre controlar 95%, praticamente monopolista, e 85%, líder, mas com espaço para alternativas,  do fornecimento de um insumo estratégico é desproporcionalmente vasta:

  • [Domínio de 95%] —-> Ausência de alternativas viáveis —-> Coerção Máxima / Captura Total
  • [Domínio de 85%] —-> Alternativa Marginal Existente (15%) -> Perda Acelerada de Alavancagem

Quando uma nação domina 95% de um mercado crucial, a economia-alvo carece de saídas operacionais no curto prazo, sendo forçada a aceitar condições impostas unilateralmente. Contudo, no momento em que a fatia de mercado controlada recua para 85%, o surgimento de uma alternativa que cubra apenas 10% a 15% das necessidades da economia afetada é suficiente para alterar o cálculo de custo de oportunidade. A mera existência dessa alternativa viável concede à nação coagida uma margem de manobra estratégica que neutraliza o poder do hegemon.

Esta distinção expõe o equívoco recorrente na análise de formuladores de políticas em nações centrais. Confunde-se repetidamente relevância macroeconômica com relevância geopolítica. Do ponto de vista volumétrico e macroeconômico, o dólar e o sistema de liquidação ocidental mantêm uma posição amplamente dominante na economia global. No entanto, sob o ponto de vista de economia política internacional, a construção de rotas alternativas de pagamento por países como Rússia, China e Índia – mesmo que movimentem volumes modestos quando comparados ao total global – altera decisivamente a eficácia das sanções financeiras.

A evolução da resposta russa às sanções ocidentais após 2014 ilustra esse mecanismo. Ao desenvolver o seu sistema interno de pagamentos financeiros (SPFS), expandir a utilização da rede chinesa (CIPS) e diversificar suas reservas internacionais, a Rússia estruturou uma válvula de escape que reduziu significativamente o impacto das sanções aplicadas a partir de 2022. O objetivo da alternativa não precisa ser a substituição do hegemon na totalidade dos seus usos globais, mas sim a criação de uma margem funcional que invalide a chantagem coercitiva.

A lógica da eficiência econômica e a busca pela segurança nacional encontram-se em rota de colisão na era contemporânea. Os vetores fundamentais da prosperidade globalizada – a especialização produtiva extrema, a maximização das economias de escala e a integração de cadeias de valor – são exatamente os mesmos elementos que geram dependência profunda e vulnerabilidade estratégica.

O dilema imposto aos Estados expressa-se na seguinte encruzilhada:

Apostar na Especialização: Maximiza a eficiência microeconômica, reduz os custos de produção e amplia o acesso a bens de alta complexidade tecnológica, contudo deixa a nação exposta à chantagem geoeconômica do país consolidador da cadeia.
Apostar na Autonomia / Proteção: Constrói resiliência e soberania operacional, mas exige o abandono dos ganhos de eficiência, resultando na alocação ineficiente de capital e em custos mais elevados para o setor produtivo doméstico.

À medida que a economia mundial passa a ser impulsionada por setores caracterizados por fortes efeitos de rede e escala – como inteligência artificial, semicondutores, computação em nuvem e infraestruturas financeiras digitais –, a vulnerabilidade das cadeias produtivas acentua-se.

A reação individual de cada país para mitigar riscos geopolíticos gera um problema de ação coletiva denominado fragmentação excessiva. Quando um Estado decide desenvolver sistemas paralelos e erguer barreiras para proteger sua infraestrutura vital, o valor global da rede interconectada diminui para todos os participantes. Essa redução no valor da rede induz outros países a também realizarem movimentos defensivos e a buscarem o desacoplamento. O resultado agregado dessa sequência de decisões individualmente racionais é um cenário em que a economia mundial se fratura em blocos regionais, elevando os custos globais de produção e reduzindo a segurança coletiva.

A fragilização das redes globais impõe um paradoxo para a própria potência hegemônica: o abuso do poder de coerção acelera a obsolescência da sua principal fonte de domínio. À medida que o hegemon utiliza suas redes financeiras e tecnológicas como armas políticas frequentes e imprevisíveis, ele destrói os incentivos para que outros Estados continuem integrados ao seu sistema.

É nesse ponto que se revela a função estrutural da ordem multilateral construída no pós-guerra. Instituições como a Organização Mundial do Comércio (OMC), o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial não representam o oposto do poder hegemônico, mas sim a sua expressão mais sofisticada. Essas instituições funcionam como mecanismos de compromisso.

Ao aceitar submeter-se a regras multilaterais e limitar a sua capacidade de exercer coerção arbitrária, o hegemon abre mão de flexibilidade tática imediata para preservar o benefício estratégico de longo prazo: a manutenção de uma rede global vasta, atrativa e altamente integrada. A autocontenção legal reduz a percepção de risco para as demais nações, incentivando-as a permanecer vinculadas ao sistema.

Quando o hegemon abandona os compromissos multilaterais e passa a atuar de forma unilateral, a previsibilidade do sistema desmorona. A reação racional dos demais atores é acelerar a transição para arranjos econômicos defensivos. A paralisia dos órgãos de solução de controvérsias da OMC e o uso recorrente de sanções extraterritoriais marcaram o início dessa nova fase, na qual o desgaste do ecossistema institucional acelera o processo de desacoplamento e divisão do comércio internacional.

Para países em desenvolvimento e potências médias como o Brasil, a leitura desse cenário geopolítico exige afastar falsas dicotomias. Não se trata de escolher entre um protecionismo irrestrito de substituição de importações ou uma abertura ingênua e desregulada. O caminho para a construção de resiliência e soberania nacional reside na diversificação seletiva orientada pela não linearidade do poder.

A estratégia industrial de uma economia média não deve almejar a autossuficiência completa em todos os elos das cadeias globais de valor, o que seria financeiramente inviável e ineficiente. O desafio consiste em mapear com precisão os gargalos críticos que possuem elevado potencial de estrangulamento político e vulnerabilidade externa.

A agenda de política industrial para o Brasil deve focar em reduzir a exposição em setores nos quais a dependência externa possa ser instrumentalizada coercitivamente.

Ao focar seus recursos em ultrapassar o limiar crítico de substituição (alcançando entre 10% e 20% de autonomia nos setores vitais), o Brasil elimina a vulnerabilidade a bloqueios externos e garante a capacidade de negociar com múltiplos parceiros em condições de maior igualdade. A economia e a geopolítica, integradas, deixam de ser uma ameaça de subordinação para se tornarem instrumentos deliberados de desenvolvimento.

Nota:
[1] Christopher Clayton, Matteo Maggiori e Jesse Understanding Geoeconomics in a Volatile World. Finance & Development, FMI, June 2026. O artigo tenta introduzir o conceito de geoeconomia pelo resgate da concepção de Hirschman. Não me alinho a essa posição. O conceito de Economia Política Internacional dá conta do assunto.

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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política. 

Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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