Quanto dos ganhos de produtividade tecnológica com a IA deve retornar como tempo e qualidade de vida?

Toda grande revolução tecnológica produz uma disputa que vai muito além da tecnologia. A questão decisiva nunca foi apenas identificar o que a máquina é capaz de fazer, mas o que a sociedade fará com aquilo que a máquina torna possível. A Revolução Industrial multiplicou a produtividade, mas também criou jornadas extenuantes, precariedade e concentração de riqueza. A ação política dos trabalhadores se mostrou fundamental para que parte dos ganhos tecnológicos fosse transformada em salários, direitos, proteção social e redução da jornada.
O movimento de trabalhadores ingleses no início do século XIX, durante a Revolução Industrial não foi simplesmente uma revolta contra as máquinas. No início do século XIX, expressava o temor de que a tecnologia fosse utilizada contra os trabalhadores, não em favor deles. Mais tarde, os sindicatos, partidos, movimentos sociais constituíram uma força de esquerda que, por meio do Estado, construiu um conjunto de mecanismos para que o aumento da produtividade pudesse resultar em melhores condições de vida. A jornada de oito horas, a seguridade social, a legislação trabalhista e a negociação coletiva não foram presentes oferecidos pelo progresso. Foram conquistas políticas.
Nos dias de hoje, a Revolução Informacional recoloca essa disputa em novas bases. A inteligência artificial, a automação, os algoritmos e a hiperconectividade estão penetrando na produção, nos serviços, no comércio, na educação, na administração pública e no cotidiano. A fronteira entre trabalho e vida tornou-se progressivamente mais difusa. Trabalha-se no escritório, em casa, no celular, durante o deslocamento e, muitas vezes, fora do horário formal de trabalho.
Diante de uma transformação dessa magnitude, uma pergunta deveria estar no centro do debate progressista: agora, qual será a agenda da esquerda? Não parece suficiente repetir que a IA destruirá empregos, assim como não basta celebrar a tecnologia como solução para todos os problemas. A história demonstra que nenhuma tecnologia determina o futuro sozinha – depende das instituições, das escolhas políticas e da correlação de forças que definem quem se apropria dos ganhos de produtividade.
Mas há uma mudança ainda mais profunda. A disputa da Revolução Informacional não se localiza apenas dentro do estabelecimento econômico, pois alcança crescentemente os domicílios, um espaço no qual uma parte enorme da economia permanecia escondida. Cozinhar, limpar, educar, cuidar de crianças, acompanhar idosos e pessoas dependentes, organizar compras, administrar contas, consultas, deslocamentos e compromissos são atividades indispensáveis à reprodução da sociedade. Sem elas, simplesmente não haveria força de trabalho disponível para a economia remunerada.
Entretanto, grande parte desse trabalho permanece invisível nas contas econômicas da sociedade urbana e industrial. Como observa Diane Coyle (The Measure of Progress: Counting What Really Matters, 2025) que, ao discutir o trabalho não remunerado na era da inteligência artificial, informa haver uma parcela gigantesca da atividade social que não aparece como emprego, embora produza valor e sustente toda a economia.
No plano da nova sociedade de serviços hiperconectada da era digital, assistentes inteligentes organizam agendas, compras, estudos, alimentação, deslocamentos e finanças. Também auxiliam na educação, no cuidado e na administração da vida doméstica, o que permite reduzir o tempo necessário para inúmeras tarefas.
Ao que parece, a revolução tecnológica começa a oferecer, pela primeira vez, ganhos de produtividade não apenas para a fábrica e o escritório, mas também para o domicílio. E aqui surge uma pergunta que pode ser mais importante do que todas as previsões sobre ocupação e rendimento, pois considera a apropriação do tempo que a inteligência artificial libera. A pergunta parece simples, porém contém uma nova agenda política.
Se uma tarefa que duraria duas horas passa a ser realizada, por exemplo, em vinte minutos, os cem minutos economizados podem seguir diferentes destinos. Podem virar mais trabalho, mais consumo, mais disponibilidade para as plataformas ou mais cobrança sobre a própria família. Mas também podem virar descanso, convivência, cultura, educação, participação social, cuidado ou simplesmente tempo para não fazer nada.
A tecnologia não decide isso, somente a sociedade pode fazê-lo. E é nesse ponto que a esquerda parece precisar atualizar sua própria tradição. No passado da sociedade industrial, a grande questão foi a apropriação do produto do trabalho, tratando-se de saber quem ficaria com o capital, quanto deveria retornar ao trabalhador e quanto seria convertido em salário, direitos e serviços públicos.
Na sociedade de serviços hiperconectada da era digital, impõe-se uma nova questão sobre quanto dos ganhos de produtividade deve retornar na forma de liberação do tempo de vida. A esquerda industrial lutou pela propriedade física e pela renda, ao passo que, na era digital, a esquerda pode lutar também pela propriedade do tempo.
Isso não significa abandonar a defesa do emprego, dos salários ou dos direitos sociais e trabalhistas, mas ampliá-la. O trabalhador do século XXI pode estar submetido a uma jornada formal menor e, simultaneamente, a uma jornada social maior, atravessada por mensagens, plataformas, cuidados, tarefas domésticas e disponibilidade permanente. Reduzir a jornada no contrato sem reduzir a jornada total da vida seria uma vitória incompleta.
Além disso, há ainda outra dimensão decisiva que é o cuidado. Durante décadas, cuidar foi tratado como responsabilidade privada das famílias, frequentemente transferida de forma desigual para as mulheres. Mas cuidar de crianças, idosos e pessoas dependentes não é um problema exclusivamente doméstico. É uma condição fundamental para o funcionamento da economia e da sociedade, pois o cuidado é também a infraestrutura.
Uma criança bem cuidada, uma pessoa idosa acompanhada, uma família com acesso a serviços públicos e um trabalhador que consegue descansar constituem, todos, elementos da capacidade produtiva de uma sociedade. Por isso, uma agenda progressista para a IA não pode simplesmente colocar uma ferramenta tecnológica dentro de cada domicílio e esperar que ela resolva problemas que são sociais.
Se a inteligência artificial reduzir o tempo de determinadas tarefas, isso deve permitir também a socialização de parte do trabalho de reprodução da vida por meio de creches, escolas, saúde, assistência, equipamentos para idosos, mobilidade, alimentação, cultura e serviços comunitários. Quanto mais uma sociedade socializa o cuidado, mais tempo e autonomia oferece às famílias.
Essa perspectiva permite formular uma nova tríade de direitos para a sociedade digital, envolvendo o direito à capacidade, o direito ao tempo e o direito ao cuidado. O direito à capacidade significa garantir acesso ao conhecimento, à educação digital e às novas tecnologias, para que a IA não seja uma ferramenta controlada por poucos. O direito ao tempo significa transformar parte dos ganhos de produtividade em redução da jornada de trabalho e ampliação do tempo de vida. O direito ao cuidado, por sua vez, significa assegurar que a reprodução social não seja tratada como responsabilidade invisível e individual de cada família.
Essa agenda também exige uma mudança na maneira como se pode medir a riqueza. Durante muito tempo, aquilo que não tinha preço ficou praticamente fora da contabilidade econômica. Uma mãe ou um pai que cuida de uma criança em casa não aparece como produtor; porém, se houver a contratação de alguém para realizar exatamente a mesma tarefa, surge uma transação monetária. A atividade mudou de preço, mas não necessariamente de utilidade social.
É preciso, portanto, avançar nas pesquisas de uso do tempo e nas contas satélites do trabalho doméstico e do cuidado. O que não é contabilizado não pode continuar sendo politicamente invisível. Esse tem sido um dos grandes desafios do IBGE em sua modernização atual, para que a estatística e as geociências oficiais possam, de forma mais adequada à sociedade de serviços da era digital, avançar para além do que é produzido de forma mercantil e também contabilizar o tempo comprometido com produção, cuidado, deslocamento, aprendizagem, descanso e vida.
O PIB continuará sendo importante, assim como a renda e o emprego continuarão sendo fundamentais. Porém, nenhum deles, isoladamente, responde à pergunta fundamental de uma sociedade tecnologicamente avançada: quanto tempo de vida seus cidadãos conseguem ter para além da obrigação econômica? Essa mudança de perspectiva também altera a discussão sobre a produtividade.
Por muito tempo, aumentar a produtividade significava produzir mais em menos tempo, sem o questionamento sobre produzir mais para quê. Nos dias de hoje, a perspectiva de trabalhar mais depressa, consumir mais e permanecer permanentemente conectado pode permitir que a inteligência artificial amplie a capacidade produtiva sem que necessariamente seja ampliada a liberdade humana.
Se parte do ganho for transformada em jornada menor, melhores serviços públicos, mais cuidado, mais educação, cultura, descanso e convivência, então a tecnologia poderá assumir outro significado histórico. Não se trata de ser contra ou a favor da IA, mas de decidir a favor de quem e de quê ela será utilizada. É justamente aqui que a esquerda parece precisar de uma renovação programática. Não basta defender os trabalhadores diante da inteligência artificial. É preciso defender a sociedade com a inteligência artificial. Não basta impedir que trabalhadores sejam prejudicados pela automação. É necessário garantir que a automação produza benefícios coletivos.
Isso implica disputar os dados, os algoritmos, as plataformas, a infraestrutura digital, a formação profissional e os ganhos econômicos produzidos pela IA. Mas implica também disputar algo aparentemente mais simples e, talvez por isso mesmo, mais revolucionário: o tempo da vida com qualidade.
A grande promessa da tecnologia nunca deveria ser trabalhar mais em menos tempo para continuar trabalhando. Deveria ser trabalhar menos para viver melhor. A Revolução Industrial criou a luta pelo salário, pela jornada e pelos direitos sociais, ao passo que a Revolução Informacional pode inaugurar uma nova etapa na luta pelo direito ao tempo liberado para a vida com qualidade. Isso não significa defender uma sociedade sem trabalho, pois o trabalho continuará sendo fonte de realização, identidade, sociabilidade e produção de riqueza, porém é preciso libertá-lo da condição de ocupar toda a existência humana.
A inteligência artificial pode ampliar extraordinariamente as capacidades humanas. A questão é se essas capacidades serão usadas para acelerar a vida ou para ampliá-la. Talvez esteja aí a agenda que permita renovar a esquerda. Não apenas perguntar quem ficará com os lucros da IA, mas quem ficará com os minutos, as horas e os anos que ela pode economizar.
Não apenas disputar a distribuição da renda, mas a distribuição do tempo. Não apenas defender o direito ao trabalho, mas construir o direito a viver além do trabalho. Porque a maior riqueza produzida pela inteligência artificial talvez não seja aquilo que ela fará pela humanidade, mas aquilo que ela finalmente permitirá fazer com a libertação do tempo para a vida com qualidade.
Por isso, a esquerda não precisa escolher entre defender o passado e abraçar acriticamente o futuro, pois a sua tarefa histórica pode ser justamente a disputa de um futuro superior. Isso exige atualmente a garantia de que os ganhos de produtividade da IA sejam compartilhados por trabalhadores e pela sociedade, por meio de melhores remunerações, proteção social e novas formas de participação nos resultados.
Ao mesmo tempo, pode-se avançar na redução da jornada de trabalho, incorporando progressivamente os ganhos de produtividade tecnológica, bem como reconhecer o trabalho não remunerado por meio da ampliação das pesquisas de uso do tempo e da construção de contas econômicas que permitam dimensionar a produção doméstica e a economia do cuidado. Da mesma forma, é necessária a expansão das políticas públicas de cuidado, reduzindo a sobrecarga concentrada nos domicílios e distribuindo socialmente as responsabilidades pela reprodução da vida.
Com isso, torna-se possível assegurar formação e acesso universal às capacidades digitais e à inteligência artificial, construindo uma governança pública dos dados e dos sistemas de IA que evite que infraestruturas essenciais da sociedade sejam controladas exclusivamente por grandes plataformas privadas estrangeiras.
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Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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