A noite do dia 3 de novembro e especialmente a madrugada de 4 de novembro ficarão marcadas de forma diferente para os estadunidenses. Para a grande maioria da população, fica marcada uma virada muito importante, que começou na noite e se ampliou madrugada a dentro, com a consolidação de novas maiorias, dessa vez dos democratas, no Senado e na Câmara de Deputados dos EUA.

Para os trumpistas, e em especial para Trump, o presidente eleito há dois anos, uma derrota daquelas significativas, marcantes, que fará com que os próximos dois anos que ainda faltam de seu mandato sejam bastante distintos dos dois primeiros anos. Sai o arrogante presidente que controlava Executivo, Legislativo e Judiciário, deve entrar um negociador que precisará ser bem hábil para seguir administrando.

Enquanto escrevo esse artigo, as apurações ainda estão em curso, mas a maioria democrata já está clara. Um partido precisa de 51 cadeiras para controlar o Senado (se for o que tem a presidência, apenas 50, porque o presidente do Senado é o vice-presidente da República, e vota em caso de desempate). A esta altura, os democratas já têm 54 cadeiras (incluídos dois “independentes” que votam com os democratas). Talvez tenham ainda um pouco mais, talvez 56 cadeiras no total. Na Câmara, onde seriam necessárias 218 cadeiras para o controle, na manhã do dia seguinte às eleições os democratas já tinham 231 cadeiras, e as projeções eram que poderão chegar a 265, projeções já superadas. Não é pouco, é virada importante nas duas casas.

Os resultados são expressivos, positivamente e negativamente, para ambos os partidos. Mas a digestão desses resultados está apenas começando. Vale lembrar que, de um lado, os republicanos já estavam confrontados com uma administração do Executivo que não lhes facilita a vida enquanto partido, gerando permanentemente temas difíceis de manejar, como guerras impopulares, gastos complicados (operações militares, novo salão de festas da Casa Branca e outros) e uma arrogância que acaba dificultando o diálogo com quem também tem a sua importância. Vários deputados e senadores republicanos acabaram se afastando de Trump.

Mesmo setores de extrema direita, muito próximos ao presidente, questionaram pontos importantes de sua política, como, por exemplo, manutenção das guerras no Oriente Médio e relações ambíguas com a Rússia. Assim, do lado republicano, a digestão dos resultados eleitorais vai depender um pouco de como Trump vai ler a resposta das urnas. Até aqui, a afirmativa (feita na noite da eleição, quando apareciam os primeiros resultados) de que o nome dele não estava na cédula e se estivesse o resultado seria outro, mostra uma tendência de se afastar da derrota e deixá-la no colo de cada republicano derrotado. Visto de longe, isso parece um pouco complicado, na medida em que os democratas nacionalizaram as eleições e trabalharam com temas muito concretos, como custo de vida, habitação, migração e outros – todos oriundos da administração de Trump.

Por outro lado, os democratas não estão em situação menos complicada para ver o futuro, embora seja mais confortável a situação de quem administra uma vitória. O crescimento da esquerda dentro do Partido Democrata vai começar a cobrar temas que são complexos para o establishment democrata, como a crítica à política genocida de Israel, a redução da política intervencionista em todo o mundo, maior flexibilidade na relação com os imigrantes, e um olhar mais generoso com os mais pobres, com políticas de bem-estar social nas áreas de saúde e habitação, por exemplo, além de políticas que facilitem a ação e mobilização sindical. Qual vai ser a resultante do embate entre os democratas e como eles deverão se preparar para enfrentar as próximas eleições presidenciais não são questões triviais.

O revés trumpista deve ser muito associado ao desempenho da economia no seu governo. Trump fez muitas críticas à administração Biden durante a última campanha eleitoral, a maioria delas relativa ao desempenho econômico, geração de empregos e nível de preços. Com a guerra no Oriente Médio, conseguiu piorar a situação, em especial no que se refere a preços, com a subida dos preços dos combustíveis internamente, e o seu reflexo, via transportes, em toda a cadeia de preços internos. Ou seja, no fundo, provou de seu próprio veneno. Vale observar que o aumento das tarifas em seu governo agravou essa situação internamente.

O que esperar daqui para a frente? Ainda é muito cedo para avaliar, mas um primeiro ponto é que esse resultado sepultou qualquer discussão que se pudesse fazer sobre mudanças constitucionais para eventualmente permitir a reeleição de Trump. Isso já era difícil, e agora, mais difícil ainda.

Provavelmente a maioria dos republicanos que tenham pretensão eleitoral vai querer distância do atual presidente. Sua figura no mundo também vai ficar mais fraca, e toda a arrogância com que se moveu até aqui será agora mais facilmente questionada. Os estadunidenses têm a figura do chamado “lame duck”, o pato manco, para caracterizar um presidente ou político que perde legitimidade e vai sendo progressivamente escanteado. Não é uma figura com a qual Trump tenha familiaridade.

Provavelmente ele vai tentar reagir, mas o que poderá fazer nesses próximos dois anos? Trump teria que se reinventar como político, o que é quase impensável a esta altura. E vai estar cercado politicamente por democratas em maioria, que passaram a pão e água nestes dois primeiros anos de governo Trump, e que têm em sua composição uma esquerda mais jovem e aguerrida que quer ir para cima do atual governo. As coisas não serão simples para Trump, que não está mais julgando os aprendizes, como em seu velho programa na televisão. Quem pode ser demitido agora é ele.

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Ilustração: Mihai Cauli e Revisão: Celia Bartone
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