A perda de competitividade gera problemas em cascata que apequenam cada vez mais o futebol brasileiro.

A seleção brasileira não ganha uma Copa desde 2002, como sabemos. Profissionais sérios, especialmente no cada vez mais raquítico jornalismo esportivo, darão razões corretas para mais um fracasso.
Não há uma única causa para aquilo que assistimos no dia 05/07/2026, quando a seleção brasileira foi merecidamente eliminada pela Noruega e teve apenas 30% de posse de bola. Isso não aconteceu de um dia para o outro, foi um “processo”, como dizem os boleiros.
Aqui, apresento uma razão que não vi ninguém suscitar e que acho tão válida quanto outras. Aliás, considero a principal razão para a situação atual do futebol brasileiro.
Falo da enorme desigualdade da distribuição das principais receitas do futebol, que deveriam ser equânimes, porque advindas de um aparato público: o sinal eletromagnético, que é de responsabilidade ou concessão do Estado, o que permite as transmissões do futebol, seja TV aberta, fechada ou internet.
O Clube dos 13 era imperfeito e tinha injustiças, mas acabaram com ele em 2012 e colocaram algo bem pior no lugar, uma divisão do bolo do faturamento do futebol com base em supostos critérios de “audiência”, beneficiando enormemente alguns poucos clubes, em especial o Flamengo.
Como se o futebol fosse uma disputa de novelas entre emissoras concorrentes, como se futebol não fosse um jogo de competição, como se um torcedor de um clube com muita torcida não fosse igual ao que torce para um clube com menos aficcionados. Virou uma disputa de audiência que acabou com a competitividade do futebol brasileiro, dando lugar à “espanholização”.
Cheio de dinheiro, o Flamengo, clube mais vencedor do Brasil nos últimos anos, não revelou nenhum jogador digno de nota desde Vinicius Junior, contrata jogadores revelados por outros clubes ou veteranos que encerraram o ciclo no futebol europeu. Tem dinheiro para contratar, não precisa da divisão de base.
Os demais clubes, afogados em dívidas e/ou com faturamento bem menor do que os supostos “campeões de audiência”, para tentar competir se endividam cada vez mais e terceirizaram as divisões de base para uma praga chamada “empresários”. Os empresários e os próprios clubes privilegiam jogadores que dão retorno mais rápido, quase sempre pontas “rapidinhos”, não vemos mais “pensadores” no meio-campo ou mesmo atacantes goleadores, o que sempre esbanjamos. Isso não é acaso, é consequência.
Os clubes continuam sem enxergar que essa diferença de faturamento é o maior problema do futebol brasileiro e muitos vendem a falsa solução das SAFs, enganando torcidas, criando a ilusão de que futebol pode ser lucrativo. Não sei se tem autor um aforismo ótimo sobre isso: “dinheiro no futebol é igual iogurte de ameixa, um laxante, quanto mais você bota, mais ele sai”.
Por melhor que seja gerido, um clube que pretende disputar campeonatos somente será lucrativo ocasionalmente, não de maneira consistente. De onde virão os misteriosos “investidores” do futebol diante dessa realidade que só nega quem acredita em slogans vazios e bobagens sobre milagres que “gestões eficientes” podem fazer?
Por melhor que seja gerido, um clube que arrecada, digamos, 700 milhões/ano apenas eventualmente conseguirá superar um outro que arrecada, também exemplificando, 2 bilhões.
E não estou aqui falando dos clubes que arrecadam mais porque sabem potencializar os tamanhos das torcidas, aí todo mérito para eles. Falo dos que arrecadam mais porque são privilegiados na divisão do bolo das receitas oriundas do espectro eletromagnético, um bem público. Já na largada, a competição fica inviável.
E a CBF ignora (ignora mesmo?) que a perda de competitividade gera problemas em cascata que apequenam cada vez mais o futebol brasileiro.
Tudo está ruindo, mas ninguém questiona que os clubes supostamente campeões de audiência mantenham seus privilégios e sejam as piscinas reluzentes do barraco pobre e miserável que virou o futebol brasileiro.
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