Ajeitou as medalhas no peito com aprumo. Pensava ser mais fácil alinhá-las. Nos filmes, os uniformes dos generais são impecáveis, não poderia deixar por menos. Calçou os coturnos reluzentes cujo cano escondeu sob a calça camuflada. Medalhado e vestido para a guerra, saiu.

Aquela figura militarizada rivalizava com a civilidade do restaurante. Os olhares eram de espanto e curiosidade, mas ele interpretou como respeito e admiração. Dizem que a distância entre a genialidade e a loucura é estreita. Não sei se é verdade. Sei apenas que a cara de medo e estranhamento que se tem para o louco se parece muito com a de deslumbramento e timidez que se tem para o gênio. Sentou-se sozinho e pediu a carta de vinhos.

O general chegou quase em seguida. De calça de linho, camisa social e paletó alinhado. Parecia pastor de igreja bem frequentada. Demorou tanto para reconhecer o amigo camuflado que se sentou sozinho em outra mesa pensando estar adiantado demais. Por cautela, sempre se adiantou. Cresceu ouvindo que a pontualidade definia o caráter e àquela altura da vida só lhe restava do caráter a pontualidade mesmo. Melhor preservá-la.

Que roupa é essa? Quis saber. “Camuflado”, respondeu. O general não sabia como reagir à obviedade da resposta. Nem à situação como um todo. O amigo, que nem militar era, estava ridículo vestido daquele jeito. Não enganava como militar. Era só grotesco mesmo. Algo fora do lugar. Todo mundo o conhecia da televisão, sabiam que não era militar. Era um fingidor. Um travestido. Talvez estivesse louco.

– Você está bem?

– Ótimo, obrigado. E você?

– É… Estou bem também… Olha, por que você está assim?

– Assim como?

– Assim, pô! Vestido deste jeito. Você não é militar! E estas medalhas? – Disse o general deixando escapar irritação.

– As medalhas eu ganhei. Esta aqui foi você quem me arrumou, lembra?

– Tá, mas isso não se usa assim. E isto aí nem é roupa para se usar num lugar destes.

– Mas eu sou um patriota!

– Eu também! Mas não saio por aí fantasiado de Duque de Caxias por causa disso.

– Isto não é fantasia. É a minha manifestação de amor à pátria. Sou eu sendo eu.

– Você é jornalista.

– Sou. E daí?

– Daí que você deveria sair por aí com uma roupa de civil fazendo pergunta que nem civil. Cuidando de fazer o que você tem que fazer do jeito certo, entendeu?

– E você não?

– Eu também, claro!

– Mas você não está de uniforme.

– Acabou o expediente faz mais de duas horas.

– Também não está cuidando de fronteira nenhuma. Nem de segurança da pátria. Nem da legalidade! Você vai para o Twitter, que nem um jornalista, dizer o que pensa com a certeza de que presta com isso um serviço público. Você entope o Tribunal de perguntas idiotas com a desculpa de que o povo quer saber, que nem jornalista. Você faz anúncio sensacionalista de fatos irrelevantes, que nem jornalista. E ainda por cima, assusta a nação que você deveria tranquilizar com insinuações de golpe de estado! E faz tudo isso sem uniforme.

– Mas é pela pátria! E você, que ao invés de informar, divulga notícia falsa. Desinformante com crachá de jornalista. Vende ideologia como se fosse fato. E agora, me aparece assim. Fantasiado. Está ridículo! Eu sou militar, você é civil!

– Está tudo misturado, mas é pela pátria…

– É… Pela pátria… Vinho?

– Pede este importado aqui porque o nacional é coisa de pobre.

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Ilustração: Mihai Cauli

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