O desafio para o novo governo de Lula é transformar a energia popular em uma agenda capaz de renovar a democracia e orientar um projeto nacional.

A vitória de Lula, impulsionada pela mobilização de grandes multidões no segundo turno presidencial, abre uma oportunidade que ultrapassa a disputa entre partidos. O país volta a se deparar com uma questão fundamental sobre como transformar a energia popular em uma agenda capaz de renovar a democracia e orientar um novo projeto nacional.
A pergunta exige recuperar uma experiência decisiva da história recente. Em junho de 2013, milhões de brasileiros foram às ruas, inicialmente mobilizados por reivindicações relacionadas ao transporte público e, rapidamente, por uma multiplicidade de demandas sobre serviços públicos, representação política e qualidade da democracia.
Aquelas manifestações revelaram uma sociedade em transformação, cujas aspirações já não cabiam inteiramente nas respostas oferecidas pelas instituições existentes. O problema não foi a mobilização das ruas, mas a incapacidade de traduzir sua diversidade em uma agenda democrática compartilhada.
2013: quando a política não escutou suficientemente
Naquele momento, o Brasil havia experimentado avanços importantes na renda, no emprego e no acesso ao consumo. Ainda assim, a ampliação das oportunidades econômicas não eliminou a insatisfação com a qualidade dos serviços públicos, a mobilidade urbana, a representação política e as perspectivas de futuro.
As jornadas de junho expressaram, portanto, uma contradição, quando as conquistas sociais conviviam com expectativas crescentes que exigiam respostas novas. Parte da juventude desejava mais participação, serviços públicos melhores e instituições capazes de responder com rapidez e transparência.
Sem conseguir interpretar plenamente a dimensão política e cultural daquele movimento, uma oportunidade deixou historicamente de ser aproveitada. A resposta às manifestações não produziu uma agenda suficientemente abrangente para incorporar suas demandas, fortalecer a participação popular e renovar a relação entre governo e sociedade.
O espaço aberto por essa insuficiência foi ocupado por diferentes forças políticas. Setores conservadores passaram a disputar o significado das manifestações, enquanto grupos de extrema direita ampliaram sua presença e transformaram o descontentamento em instrumento de polarização. A insatisfação que poderia ter impulsionado a renovação democrática também alimentou a deslegitimação das instituições e a ascensão de um projeto autoritário, que chegou à Presidência em 2018.
A lição não é que as multidões devam ser contidas ou que suas reivindicações sejam um risco para a democracia. É justamente o contrário, pois quando a política democrática não escuta e não oferece caminhos para a participação, outras forças podem se apropriar das frustrações sociais.
A nova mobilização como oportunidade
A vitória de Lula, acompanhada por grandes mobilizações no segundo turno, permite retomar essa questão em novas condições. A defesa da democracia e a rejeição de alternativas autoritárias podem constituir um ponto de convergência, mas não bastam para sustentar um projeto nacional de longo prazo.
A população precisa encontrar, depois das eleições, canais concretos para influenciar as decisões públicas. O voto deve abrir um ciclo de participação, e não encerrar a mobilização social. O desafio é converter a convergência eleitoral em compromissos permanentes com a melhoria das condições de vida.
Isso requer uma agenda que combine crescimento econômico, valorização do trabalho, redução das desigualdades e reconstrução da capacidade industrial brasileira em plena transformação digital. Exige, por isso, enfrentar o custo da moradia, melhorar o transporte público, fortalecer o Sistema Único de Saúde, elevar a qualidade da educação e ampliar as oportunidades para os jovens que se veem diante da disputa pelo futuro.
Também demanda reconhecer as mudanças que reorganizam a sociedade. A inteligência artificial, as plataformas digitais e a concentração de dados modificam o trabalho, a comunicação e as relações de poder.
Uma agenda nacional contemporânea para a nova sociedade de serviços hiperconectada da era digital precisa combinar soberania tecnológica, formação profissional, proteção social e oportunidades para que a inovação beneficie a maioria da população. Não se trata de apresentar uma lista de promessas, mas de construir prioridades claras, estabelecer metas verificáveis e permitir que a sociedade acompanhe sua execução.
Da rua às instituições, das instituições à vida cotidiana
O principal aprendizado de 2013 é que mobilização popular e capacidade de governo precisam caminhar juntas. As ruas revelam problemas, desejos e conflitos que as instituições nem sempre conseguem perceber. Cabe à política transformar essas manifestações em propostas, decisões e resultados.
Para isso, é necessário revitalizar conselhos e conferências, fortalecer consultas públicas, criar formas de participação nos territórios e ampliar o diálogo com toda a sociedade comprometida com o desenvolvimento nacional.
A participação, contudo, não pode ser apenas simbólica. Precisa influenciar prioridades, orientar investimentos e contribuir para avaliar políticas públicas. Quando as pessoas percebem que sua voz produz consequências, a confiança nas instituições pode ser reconstruída.
O mesmo vale para a comunicação governamental. Não basta anunciar realizações ou divulgar indicadores positivos. É fundamental demonstrar como as políticas modificam a vida cotidiana, reconhecer dificuldades persistentes e explicar os caminhos para superá-las. A confiança se constrói com resultados, transparência e capacidade de escuta.
O governo federal tem um papel central, mas a tarefa não pode ser exclusivamente governamental. Partidos, parlamentos, governos estaduais e municipais, organizações sociais e instituições públicas precisam participar da construção de uma agenda que sobreviva aos ciclos eleitorais.
Não repetir 2013 significa aprender com as ruas
A experiência de junho de 2013 demonstrou que uma sociedade mobilizada pode abrir possibilidades que a política tradicional não prevê. Demonstrou também que nenhuma força democrática está imune ao risco de perder o contato com as aspirações populares.
A oportunidade atual consiste em evitar que a energia que contribuiu para a vitória eleitoral se dissipe ou se transforme em frustração. Isso depende de reconhecer a pluralidade das multidões, acolher suas reivindicações e construir respostas que combinem urgências sociais com mudanças estruturais.
Lula pode exercer papel decisivo nesse processo, articulando forças políticas e sociais em torno de um projeto nacional renovado. Mas o êxito dependerá da capacidade de formar novas lideranças, fortalecer organizações coletivas e ampliar a participação para além dos períodos eleitorais.
O Brasil não precisa escolher entre a mobilização das ruas e a estabilidade das instituições. Precisa fazer da participação popular uma fonte de renovação institucional e de legitimidade democrática.
Em 2013, as multidões anunciaram demandas que não encontraram tradução política suficiente. A extrema direita soube explorar parte do vazio que se abriu. Agora, a mobilização eleitoral oferece a oportunidade de aprender com aquela experiência e construir uma resposta mais abrangente. A vitória nas urnas abre a porta para que a participação popular, a capacidade de governo e um projeto nacional consistente determinem o que o Brasil será capaz de construir depois dela.
***
Os artigos representam a opinião dos autores e não necessariamente do Conselho Editorial do Terapia Política.
Ilustração: Mihai Cauli
Clique aqui para ler “O entusiasmo da juventude“, de Abrão Slavutzky.






